ABRIMOS NOS DOMINGOS 15 e 22 DEZ.

Aberto de 2ª a Sábado
das 10h às 14h e das 15h30 às 19h30
abrimos à noite para as sessões agendadas

AGENDA

22/06/09

ler e depois 4

As batalhas que ganhámos
ou
“As máscaras da Utopia”


Já anda por aí um livro que também já foi mencionado no “Incursões” (*).
Mencionado e louvado, que o escriba impenitente teve a honra de ser o (ou um dos) seu primeiro leitor. Deu logo por duas gralhas, prontamente corrigidas, há que dizê-lo e ficou subjugado pela qualidade literária, pelo rigor crítico e (por que não confessá-lo) pelo aparato iconográfico.

As Máscaras da Utopia (História do teatro universitário em Portugal 1938-74) de José Oliveira Barata (Fundação Calouste Gulbenkian, 2009) é, mais do que uma aposta ganha, uma história viva e inteligente de uma das frentes de batalha que quase desde o início se abriu contra o cinzentismo do Estado Novo. E contra, há que dizê-lo, o espectáculo desolador do teatro que se fazia em Portugal.
Não que tudo o que subia ás tábuas fosse mau, medíocre ou tristonho. Nada disso. Fez-se durante aqueles anos bom teatro mesmo com a Censura a apertar. Mas fez-se igualmente muito mau teatro, premiou-se péssimo teatro, distorceu-se até ao grotesco o gosto do público, contemporizou-se em excesso com os diktats do regime, obliterou-se a modernidade quando, pura e simplesmente não se tentou sonegá-la.
No meio disso tudo, dessa história trágico teatral onde soçobraram tantas companhias, tantos actores, tantos projectos, o teatro universitário foi um oásis. Mesmo quando roçou o pueril e o amadorístico. Em Coimbra, primeiro, com o TEUC, no Porto logo de seguida com o TUP e finalmente em Lisboa com os emblemáticos grupos de Letras (GTFLL) e de Direito (GCAEFD), para não falar no CITAC coimbrão também, apareceu um novo público, uma nova atitude e criaram-se as bases para muito do (bom) teatro que hoje se faz e se vê.

A rapaziada nova que sentia o fascínio da palavra sobre as tábuas fazia fogo de tudo o que estava ao seu alcance, perdia dias, semanas, meses, o ano se fosse necessário, para levar à cena autores esquecidos, autores proibidos, autores ignorados.
Foi uma longa e incerta batalha, uma guerra de guerrilhas cultural, com os seus momentos altos e baixos, sempre exaltante, trazendo e levando para o teatro profissional (e para o amador, também e de que maneira!!!) sangue novo, entusiasmo, senso crítico e exigência, a exigência dos vinte (irrepetíveis) anos, os aplausos e as pateadas que um sistema e um regime medíocres não toleravam.

De tudo isto dá conta José Oliveira Barata, professor emérito da Faculdade de Letras de Coimbra, ele próprio antigo membro do TEUC.
Se o Aníbal Almeida fosse vivo teria ocasião de repetir a propósito deste texto uma das suas célebres boutades: “Trabalho milimétrico, meninos!, Trabalho milimétrico!!!”
Fiz parte do numeroso grupo de amigos e conhecidos de JOB que se prestaram a longas entrevistas, a perguntas massacrantes, por vezes a horas impossíveis da noite, sobre pormenores á partida bizantinos mas que o antigo professor catedrático tentava resolver como se disso dependesse a vida. O resultado está á vista nos quase mil e cem protagonistas citados (lá está: ribeiro, mc, claro!), nos aproximadamente trezentos espectáculos recenseados, na impressionante bibliografia (quatro densas páginas em letra miudinha!).

Mas isto, não é nada em comparação com a limpa história que JOB relata numa linguagem viva, alegre, bem humorada, irónica em certos pontos sempre bem escrita, excelentemente escrita. Exactamente o contrário de muita dessa aterradora prosa universitária que derruba o mais intrépido leitor ao fim de duas páginas e dez dicionários compulsados. Até nisto Barata se mostra diferente. Não que seja de hoje. Quem, porventura teve a sorte de ler a tese de doutoramento sobre o Judeu [“António José da Silva, criação e realidade” (Coimbra, 1986)] ou “Para compreender Felizmente há luar" (2004) sabe bem do que a casa gasta em rigor, inteligência, sensibilidade e clareza.

No dia 10 de Julho pf o livro será oficialmente apresentado na Gulbenkian onde, espero, seremos muitos a estar presentes para ouvir o Emílio Rui Vilar, um citaqueano, o Jorge Silva Melo e o Luís Miguel Cintra dois brilhantes expoentes da passagem do teatro universitário para o profissional.
Leitoras e leitores, apesar de amigo do autor não me atreveria a tanto empenho e entusiasmo se não pudesse garantir-vos que isto é uma obra maior, necessária e oportuna. Ofereçam a vocês mesmos o livro e vão para férias mais leves de carteira e levíssimos de coração. Somos nós todos que estamos ali naquelas páginas naquela história e nesta verdadeira cultura de que no Verão muitas vezes nos esquecemos. Boa leitura, bons banhos de sol e de mar. Viva o teatro!

*queridos e eventuais leitores: há aqui uma pequena batota. Este texto foi publicado no blog incursoes.blogs.sapo.pt. Não é pois um original como Vocês mereceriam. Todavia pareceu-me tolice rematada fazer um outro texto que diria exactamente o mesmo que aqui está ou, pior, não escrever sobre um livro que reputo interessante só porque já tinha escrito sobre ele noutro sítio. E aposto que quando lerem "as máscaras..." me perdoarão.

1 comentário:

Graciosa disse...

Obrigada por me terem dado esta preciosa informação! Tentarei, no dia 1o de Julho ir à Gulbenkian, pois parece haver afinidades q. b. que indiciam valer a pena estar atenta a mais uma obra de qualidade e meritória de reflexão

graciosa