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AGENDA

27/04/12

Lídia Jorge: a noite das mulheres cantoras ou o reino do império minuto


«Mas nós rodopiávamos indiferentes aos brilhos projectados sobre as nossas roupas, porque sabíamos que estávamos a celebrar um encontro no interior do império minuto, e havia vinte e um anos que na realidade não nos encontrávamos.»
Lídia Jorge, A noite das mulheres cantoras (2011)
A ânsia desmedida pelo sucesso instantâneo é uma realidade incontornável nos nossos dias, fantasiada por uma multidão sempre crescente de potenciais candidatos aos cumes olímpicos da fama e campos elísios da imortalidade. Deitarem-se obscuros e levantarem-se famosos nos quatro cantos da terra. Eis a grande apetência acalentada por todos. Custe o que custar e doa a quem doer. Entre um momento e o outro, bastaria uma simples aparição fulgurante num qualquer concurso mediático, norma geral patrocinado pela variante televisiva, para atingir o resultado merecido, o triunfo repentino e irrefutável. Nestes desígnios de idolatria galopante, o sonho nunca prevê o pesadelo. A glória da vitória nunca admite a vanglória da derrota. Cada pretendente crê poder alcançar por mérito próprio o rótulo de top model dos trapos, master chef dos pratos ou super idol dos palcos. Tudo em inglês, para que a ilusão do troféu conquistado adquira um relevo de magnitude planetária e deixe todos de boca aberta e a salivar de inveja.

Lídia Jorge centra-se nesse fenómeno mediático atual do reino do império minuto n'A noite das mulheres cantoras (2011), onde nos relata a saga de cinco candidatas a estrelas cintilantes das canções pop-swing erigidas em português e com passaporte garantido para o mundo. Fá-lo através de duas versões de dimensão diferente, a oficial e a real, separadas por um intervalo de vinte e um anos de lembranças adormecidas e de esquecimentos avivados. À mais recente e breve, dá o nome de «O Conto de Solange» e situa-a numa noite perfeita do verão de 2009. À mais antiga e longa, dá um ar de exame de consciência dos acontecimentos vividos em 87-88 e reparte-a por vinte capítulos numerados e um epílogo sintetizador de todos os fragmentos convocados pela intriga. Amor e ódio, riso e choro, vida e morte, são ingredientes omnipresentes na ação que dá corpo à fábula e alma ao texto.

Lisboa é o palco central do drama e África o lateral das tragédias. Os ecos de histórias antigos são frequentes. Prodígios duma escrita sem limites a que a autora há muito nos habituou. As costas índicas dos murmúrios e atlânticas das saudades, as cidades silvestres das amizades forjadas e das inimizades forçadas, as notícias de ventos assobiando nas gruas do devir coletivo dum povo, são atualizados pela memória da voz feminina que conta e reconta a história dum bando de cinco mulheres cantoras, descendentes dum velho império perdido à procura de novos horizontes globais a subjugar que possam combater sem tréguas as sombras multisseculares dos fantasmas de antanho. Os aromas do chá moçambicano do Monte Namúli no Gurué e do café angolano do Paralelo Dez no Cuanza-Sul chegam-nos através das rotas de Joanesburgo e do Lobito com umas pitadas das rotas americanas alternativas dos EUA e Canadá. Há ainda um pão com diamantes expressamente preparado para as merendas futuras num cais de muitas chegadas e partidas, de muitas debandadas e retornos, de escassas permanências e demasiadas ausências. A janela da imaginação abre-se de par em par em cada página dum romance composto com palavras musicais a soar a jazz com cadência perfumada de blues, requebros dissonantes de ópera italiana rejeitada e um tudo ou nada de fado lusitano mal digerido a deixar um travo amargo na língua.

O protagonismo imediato recai nas cinco jovens que dão título à obra e mediato na corte de fabricantes de êxito certo e seguro, gravado em vinil e consagrado em cena. A fazer-lhes companhia silenciosa, encontramo-nos nós, leitores-espetadores privilegiados dum reality show especial, urdido com utopias quotidianas tecidas para deleite e proveito de todos aqueles que queiram assistir à representação sempre renovada da comédia humana. O teatro da vida é oferecido a quem o quiser observar no interior dum livro tradicional feito de papel e letras a cheirar a tinta e pautas musicais invisíveis à espera duma partitura inspirada. Então, poderemos idear a melodia mais ajustada para trautear com as mulheres cantoras as lyrics avisadas da Canção Afortunada, aquela que nos fala de alguém que tem tudo e não quer nada, ironia trágica quando aplicada a um grupo que nada tem e tudo quer. Amor, morada, valor, fama e tudo o mais que vier.

2 comentários:

Tina disse...

Tenho sempre a veleidade de deixar um comentário, pois os inspirados textos de quem sabe o que escreve e tem prazer nisso me impelem a participar minimamente neste magnífico produto da arte de escrever. Cada vez mais o Prof. Artur se excede nas súmulas e, desta vez, deixei-me envolver com mais prazer ainda na música que ele compôs com as partituras que Lídia Jorge nos tem legado e nas quais ele mergulha para nos transmitir uma dança exótica de palavras, que traduzem em sintonia os livros maravilhosamente escritos pela autora.
Sobre o tema atual do livro, a vocação moderna é na realidade de um exibicionismo que traduz o facto das pessoas não saberem gostar de si mesmas, já que não é só o dinheiro que as impele mas principalmente a necessidade absoluta de se exporem publicamente. Neste caso, como cantoras que aspiram a tudo o que julgam não ter; em demasiados casos, vendendo a sua privacidade apenas pelo vil metal. Resta-me a certeza de que ainda há quem saiba respeitar-se a si próprio e ao seu próximo, pelo que consegue chegar a um cais e sentir que o vento assobia trazendo a notícia de amizades que vale a pena cultivar.
Obrigada pela criatividade e musicalidade deste belo texto que partilha connosco, Prof.

Artur R. Gonçalves disse...

Lídia Jorge, na página inicial que antecede o romance, centra-se numa pensada e abandonada hipótese de aproveitar como epígrafe uma ideia retirada do livro de Nina Berbérova e tece, a esse propósito, alguns considerandos sobre as caraterísticas da narração de voz única própria dos escritos de memórias e da inexistência efetiva de verdadeiros monólogos. É que, de facto, o escritor está constantemente a dialogar com o leitor através da obra publicada. Neste sentido, «A noite das mulheres cantoras» continuará a passar a sua mensagem independentemente das interpretações críticas que possa suscitar. Os comentários laterais a estas recensões particulares seriam, assim, perfeitamente dispensáveis ou inúteis, porque feitas em segunda mão e sem a qualidade poética da primeira. Todavia, os leitores mais curiosos lá vão sentindo a vontade de confrontar com os seus companheiros de estrada as anotações recolhidas nas viagens encetadas pelos universos da escrita e o diálogo estabelece-se. E as conversas lá vão surgindo no espaço privilegiado criado pelo pátio de letras para proveito de todos. Obrigado, Tina, pela constância e luminosidade das partilhas e amabilidade dos palavras de apreço proferidas…