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AGENDA

13/03/11

Catherine Clément, dez mil guitarras & um bada


«Les dix mille Portugais avaient perdu leur roi. Mais étaient-ce vraiment lui ? Qui pouvait l’attester ? Des officiers captifs reconnaissaient un corps défiguré, dépouillé de ses insignes royaux ? Allons ! Ce n’était pas vrai. Il avait survécu, il s’était échappé, il allait revenir, il ne pouvait pas mourir. Le roi du Portugal, Sébastien le Désiré, désespoir de son peuple. Quand le soleil se leva sur le champ de bataille, dix mille guitares restèrent sur le sable, abandonnées à Alkacer-Kébir.»
Catherine Clément, Dix mille guitares (2010)
O sebastianismo continua a mover céus e terra por onde passa e toca. Decorridos mais de quatrocentos anos sobre o desaparecimento do desejado em Alcácer Quibir, há ainda quem acredite piamente no regresso do encoberto duma ilha encantada, numa manhã de nevoeiro, montado num cavalo branco, espada em riste, pronto a salvar o reino perdido e a conquistar um quinto império global. O padre António Vieira terá sido o primeiro visionário a dar corpo ao mito messiânico do último cruzado europeu a terras da moirama, Fernando Pessoa um dos derradeiros a conceder-lhe um sentido profético e a aplicá-lo ao devir histórico do país. O fascínio engendrado pelo destino trágico do rei das mil quimeras também tem agregado uma legião de ardentes seguidores dentro e fora dos palcos teatrais onde os diversos atos do drama se representaram.

Catherine Clément deixou-se cativar pelo enredo da peça e deu-lhe uma interpretação muito especial nas páginas das Dez mil guitarras (2010), as tais que os desditosos soldados portugueses terão abandonado no campo da batalha que viu morrer três reis, produzir lendas em duas línguas e fantasias em muitas outras. Para fugir ao déjà vu, optou por uma forma original de recordar uma gesta tantas vezes contada e recontada a gerações sucessivas de ouvintes atentos e interessados. Elegeu o rinoceronte indiano do monarca lusitano como contador de memórias desses tempos conturbados, em que a cosmovisão oriental era dado a conhecer à ocidental através dos animais exóticos de grande porte, convertidos para o efeito em embaixadores privilegiados dos novos impérios em formação. De repente, vem-nos à memória A viagem do elefante (2008), com que José Saramago nos relata as peregrinações de Salomão, o paquiderme oferecido por D. João III de Portugal ao sobrinho Maximiliano da Áustria. Lidos os livros, apercebemo-nos que as analogias discursivas são escassas e acabam por se diluir nos meandros familiares das personalidades/personagens envolvidas na intriga. Os planos da romancista francesa vão mais além do que os tecidos pelo romancista português. Aproveita-se da história do bada asiático para traçar em linhas muito precisas a história dos seus proprietários europeus: o rei D. Sebastião de Portugal, o imperador Rodolfo II da Alemanha e a rainha Cristina da Suécia.

Através de um eficaz esquema de narrativas cruzadas, as instâncias enunciativas convocam ao relato as particularidades de cada um dos retratados e dos espaços cénicos pisados nos seus percursos de vida. As rivalidades religiosas e dissidências internas entre cristãos, muçulmanos e judeus por um deus único e verdadeiro; os conflitos políticos e familiares gizados pelas casas de Avis, Habsburgo e Vasa pelo domínio hegemónico dos povos; as loucuras de uns e de outros a justificar as razões e sem-razões das suas ações. O contraponto cultural é-nos transmitido por um Luís de Camões envelhecido, um Giuseppe Arcimboldo cansado e um René Descartes acabado. Arautos da decadência de um mundo em mudança. O real e o imaginário a alternarem entre si soluções de continuidade ficcional para colmatarem as lacunas do nosso conhecimento factual. Os animais e os objetos ganham alma e analisam a vida dos humanos que os rodeiam, o espírito de um brâmane hindu transmigra para o corpo do bada-cronista, Filipe II fala com o fantasma de Juana de Áustria transmudada em libelinha. A fábula encadeada com o apólogo a dar sentido à alegoria ao longo de todos os registos fragmentários. O desejado sobrevive à carnificina africana, opta pelo estatuto de encoberto numa ermida marroquina, ganha o epíteto de enfermo e o dom de curar as maleitas alheias à sombra da Bíblia e do Alcorão. Casa-se com a órfã do sultão derrotado, constitui uma família numerosa e resiste à tentação de reclamar o trono a que tinha direito e a que outros menos credenciados se habilitaram sem medir os riscos que essa temeridade acarretava.

A recreação biográfica das três cabeças coroadas que unificam a crónica tem o condão de nos revelar facetas de vida possível que as lendas negras se encarregaram de inviabilizar. O rei-cruzado português desfaz os sonhos de guerra no convívio com o xeique muçulmano Tidjane Abdallah, o imperador-alquimista austríaco cimenta o sonho de paz nos encontros com o grande rabino Maharal de Praga, a rainha-bárbara sueca abdica de um trono luterano para aceder ao livre arbítrio católico. Três aprendizagens desenhadas nos universos da tolerância e do diálogo entre credos. Mensagem de esperança nesta nossa aldeia global tão pouco habituada a enxergar a alteridade. Eco longínquo desse campo de batalha perdida pelo rei desejado onde os trinados das dez mil guitarras abandonadas continuam a soar o triste fado sebástico de um destino ainda por cumprir.

3 comentários:

Tina disse...

O título é sugestivo e impele à imaginação de dez mil guitarras levadas pelos portugueses para o campo de batalha. Uma visão romântica para o horror que é milhares de homens a matarem-se em nome das ambições dos poderosos.
O tema lembra-me de imediato "A Ponte dos Suspiros", de Fernando Campos", que relata o regresso de O Desejado e que vagueia pelo país a penitenciar-se da sua cegueira surda aos conselhos avisados de quantos souberam da empresa, mormente dos próprios mouros. Chega a Lisboa e assiste à própria missa fúnebre nos Mosteiros dos Jerónimos e tenta, com a ajuda de amigos, recuperar o trono, mas é atraiçoado pelos que já têm interesses instalados... O livro é muito interessante, mas confesso que esta visão mais abrangente de Catherine Clément sobre a Europa de então se me afigura mais sedutora. É mais um livro que me fica como referência. A Viagem do Elefante, de Saramago, vem na verdade à memória pelo pormenor do seu primo rinoceronte indiano, embora a imaginação da autora tenha ido mais longe, fazendo falar os animais e objetos à bela maneira de Lobo Antunes... ou de Mia Couto, mais colorida pelas crenças africanas.
Gosto essencialmente da proposta de uma solução de uma Europa que chega a um consenso "da tolerância e do diálogo entre credos", num tempo em que a esperança na condição humana anda tão arredada. No que respeita a este cantinho à beira-mar plantado, que o "destino ainda por cumprir" esteja refletido na movimentação de massas, ao som da lira dos jovens que conseguem arrastar multidões porque todos desejam o mesmo: uma vida e um destino verdadeiramente humanos.

Artur R. Gonçalves disse...

O sebastianismo continua vivo na imaginação dos criadores literários. Curiosa a solução de Fernando Campos de obrigar o desejado a assistir às suas próprias exéquias nos Jerónimos. Catherine Clément é menos fatalista nas soluções encontradas e mais generosa para com o rei-cruzado. Dá-lhe a possibilidade de se autorredimir dos erros cometidos, mantendo-se de espontânea vontade encoberto na moirama e em permanente diálogo com o povo que tentara conquistar pela força das armas. O destino deste D. Sebastião romanesco cumpriu-se plenamente. Assim nós consigamos cumprir também o nosso sem ficarmos à espera que sejam os outros a fazê-lo por nós…

Tina disse...

Não tinha visto a tua resposta, que ainda me impele a comentar que em "A ponte dos suspiros", Fernando Campos também sugere que a tentativa de recuperação do trono por D. Sebastião traduziria a sua intenção de se redimir dos erros cometidos, após ter visto com os próprios olhos a situação em que deixou o país, no contato com o povo. Mas acabou por ter de fugir de novo, persistindo o mistério sobre o seu destino e o mito do sebastianismo. Dois romances diversos, o de Fernando Campos a deixar-nos um travo amargo porque sugere a dificuldade do povo português em reencontrar (ou encontrar?) o seu destino...