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AGENDA

11/06/11

Roberto Bolaño, sombras, desertos & enigmas dos detetives selvagens


«He sido cordialmente invitado a formar parte del realismo visceral. Por supuesto, he aceptado. No hubo ceremonia de iniciación. Mejor así.»
Roberto Bolaño, Los detectives salvajes (1998)
Os grandes marcos da criação literária assentam invariavelmente em motivos triviais traçados na mais perfeita simplicidade argumentativa. A cólera de Aquiles, a loucura do don Quijote, a magia do doutor Fausto, o idealismo do rei Artur, a lascívia do don Juan a inspirarem gerações de leitores ávidos de estímulos estéticos feitos de palavras ditas, desditas e reditas. Gilgamech persegue a imortalidade, Édipo conhece-se a si mesmo, Ulisses regressa a casa e vinga-se dos pretendentes de Penélope, Lazarilho tenta saciar a fome e singrar na vida, Romeu e Julieta perpetuam o amor que o destino lhes ajustou através da morte. Os exemplos podiam multiplicar-se até esgotarem os leitmotiv mais imitados pelas belas-letras universais. Umberto Eco exuma o segundo livro da Poética de Aristóteles numa biblioteca conventual com nome de rosa e entrega-o às chamas purificadoras dum incêndio providencial. José Saramago refaz a história do cerco de Lisboa com a mera troca de um sim por um não e problematiza o papel desempenhado pelos cruzados na conquista da cidade. Roberto Bolaño preenche as 600 páginas d' Os detectives selvagens (1998) com o rasto de uma poetisa mexicana que publicou um único poema visual em toda a sua existência, feito com uma palavra, duas sílabas e três desenhos. Genial, apetece dizer.

Frequento o novelista chileno há relativamente pouco tempo. O boom editorial do 2666 foi o culpado. Por vezes, o ruído causado pelos best-sellers globais acaba por ser proveitoso. Não resistimos ao apelo publicitário e embarcamos na aventura peregrina da descoberta da obra-prima anunciada. Depois, damo-nos conta que a qualidade também pode conviver com a quantidade e passamos à exploração sistemática dos restantes títulos dos autores bafejados pelo sucesso, para que o prazer experimentado uma vez se volte a repetir ad æternum. Lidos os livros, a sensação que nos invade é a de que quem lê um lê todos. Curiosamente, fica-se com a vontade de ter um outro mais ali à mão, para recomeçar tudo de novo, à cata de um final decisivo para todas as histórias inacabadas que povoam cada um dos romances já publicados ou em vias de o serem. Pura ilusão. O segredo da escrita do arquiteto do infrarrealismo reside sobretudo no caráter lacunar dos relatos, na incapacidade de lhes dar um desfecho tranquilizador, porque cada um deles está ancorado na realidade quotidiana que nos envolve, modelo matricial de todos os heróis/anti-heróis imaginados pela ficção, até que a morte nos liberte e dê a possibilidade de vislumbrar a perfeição.

Juan García Madero ingressa no universo imagético do realismo visceral e regista nas páginas de um diário pessoal as impressões dessa experiência peculiar. Tem 17 anos e a vida toda pela frente. Fá-lo enquanto mexicano perdido na imensidade da capital do México, entre 2 de novembro e 31 de dezembro de 1975, e nos desertos de Sonora, entre 1 de janeiro e 15 de fevereiro de 1976. A balizar as efemérides documentadas nos dois períodos de espaço-tempo referidos, o leitor depara-se com 26 blocos de fragmentos narrativos, repartidos por 96 testemunhos individuais dispersos, proferidos nos quatro cantos do mundo, entre 1976 e 1996, por 53 personagens diferentes, a pedido de um número indeterminado de pesquisadores ou detetives selvagens. Nesses vinte anos de diligências ininterruptas, encontramos Arturo Belano e Ulisses Lima a rastrearem as pisadas da mítica Cesárea Tinajera e a serem também eles investigados, alternadamente, não se sabe muito bem por quem, por quê ou para quê. Sombras, desertos e enigmas selecionados a adensarem o conjunto de mistérios insondáveis, labirínticos, sinuosos que os microrrelatos coligidos nunca chegam a esclarecer cabalmente e que os leitores avisados deixaram de questionar ou se habituaram a ver como episódios soltos, isolados, singulares, expostos ao sabor da pena ou dos caprichos da fortuna.

Em síntese, trata-se de um extenso metadiscurso sobre a literatura latino-americana atual, uma sátira cerrada à república das letras e à sua relação utópica com a política, um olhar crítico à demanda assídua das portas do paraíso, aquelas que se abrem ao reconhecimento público almejado por todos os artistas e dão acesso aos passeios de uma fama desejada e raras vezes alcançada. Bolaño aproveita a boleia e mergulha a fundo na fábula. Põe a máscara de uma ou outra personagem e converte-se no detetive selvagem por excelência dos seus próprios percursos pelos domínios da escrita: aventureiro, andarilho, exilado, boémio, libertino, novelista e poeta. Ingredientes essenciais para dar sabor a uma vida breve e auspiciar sucesso a uma obra celebrada, paradigma de eternidade a muito poucos concedida, apanágio de seres privilegiados habituados a jogar às cartas com os deuses e a ganharem.

2 comentários:

Tina disse...

Depois de ler um artigo do Prof. Artur Henrique, cujo nome é pelos vistos auspicioso face à maneira grandiosa como domina a arte da escrita, interrogo-me como é possível as pessoas resistirem a deixar um comentário sobre o que a sua pena lhe ditou e que connosco partilha.
Tendo inúmeros livros por ler nas estantes, tenho desleixado a aquisição de novos títulos, mas a lista de autores sugeridos pelo Prof. não ficará esquecida. Este entusiasmo e mestria com que descreve os romances de Bolaño não são para ignorar, mas antes um convite para pensar nas leituras das férias grandes que se aproximam a passos largos. As referências bibliográficas, descritas de forma mágica, deixam-me suspensa das pistas que irão nortear o prazer de descobrir as aventuras descritas, neste caso, nas páginas do diário do jovem mexicano.
Se a quantidade pode coexistir com a qualidade, espero que um dia o Prof. Artur tenha tempo de se dedicar com mais tempo à escrita, embora eu julgue que as aulas lhe são por demais queridas para as abandonar antes do tempo.
Obrigada, Prof, por mais esta partilha! É sempre um prazer e uma lição ler um texto seu!

Artur R. Gonçalves disse...

O maior tributo que podemos prestar a Roberto Bolaño é ler a sua obra compassadamente e sem precipitações, para que a magia da descoberta se prolongue por muito tempo. Comentá-lo é já de si uma ousadia que só ganha sentido se contribuir para a divulgação do texto ou partilha de ideias. Cumprido o primeiro objetivo, só resta encontrar oportunidade para dar corpo ao segundo. As palavras só estão gastas quando nós desistimos de lhes dar vida. Obrigado pelo estímulo dado às escritas pessoais registadas neste espaço privilegiado e incentivo seguro para o voltar a fazer uma ou outra vez mais.