ABRIMOS NOS DOMINGOS 15 e 22 DEZ.

Aberto de 2ª a Sábado
das 10h às 14h e das 15h30 às 19h30
abrimos à noite para as sessões agendadas

AGENDA

02/01/14

Italo Calvino: Se numa noite de inverno um viajante iniciasse uma história sem fim à vista…

«Se una notte d’inverno un viaggiatore, fuori dell’abitato di Malbork, Sporgendosi dalla costa scoscesa, senza temere il vento e la vertigine, guarda in basso dove l’ombra s’addensa, in una rete di linee che s’allacciano, in una rete di linee che s’intersecano, sul tappeto di foglie illuminato dalla luna, intorno a una fossa vuota – Quale storia attende laggiù la fine?»
Italo Calvino, Se una notte d’inverno un viaggiatore (1979)
Todo aquele que se interessar pelos universos da escrita e da idealização de histórias fingidas deve procurar na sua livraria habitual, na biblioteca mais próxima ou no recanto esquecido duma estante de arrumar palavras escritas em livros o contributo valioso de Italo Calvino, Se numa noite de inverno um viajante (1979), publicado algumas décadas atrás, mas sempre atual nas reflexões nele contidas. Trata-se dum relato que nos exibe o incipit de dez outros relatos com muitas intrigas para contar. Todos têm um início registado nas páginas do volume a que o leitor tem acesso, mas nenhum deles lhe oferece um final tranquilizador das tramoias anunciadas. Exercício fascinante para quem entende a literatura como um desafio constante da imaginação para dar sentido aos labirintos da vida e às lacunas do dia-a-dia. 

O romance que alberga a promessa gorada duma mão cheia doutros mais no seu seio provocou, de imediato, uma acalorada discussão polémica na república global das letras, cujos ecos ainda se deixam ouvir com alguma nitidez nos nossos dias, a três décadas e meia de distância da editio princeps. A recensão crítica publicada na altura por Angelo Guglielmi numa revista da especialidade levou o criador italiano a ripostar com uma longa reflexão explicativa das questões arroladas, transcrita como apresentação da obra na reedição que segui. A réplica faz-se acompanhar duma chave de leitura pessoal do autor, esquissada em termos esquemáticos e facilitadores da tarefa decifradora encetada por um leitor menos prevenido. Trata-se duma iniciativa interessante em termos editoriais, mas limitadora da autonomia dos viajantes reais em interpretarem os viajantes virtuais equacionados pela ficção de ficções. 

Enquanto projeto diegético de definição e descrição autoral dum livro com livros dentro, a aproximação mimética aos palcos que pisamos e cenários que preenchemos, feita de dramas que começam e não acabam, remete-nos para um vasto políptico verbal de mexericos tecidos em dez painéis. Romances da névoa, da experiência corporal, do simbólico-interpretativo, do político-existencial, do cínico-brutal, da angústia, do lógico-geométrico, da perversão, do telúrico-primordial, do apocalíptico. Percurso guiado pelas rotas poéticas da invenção relatada, a que um mero caminheiro amante dos trilhos ignotos dará pouca ou nenhuma importância. A busca da plenitude sentida pelo fabulador, através dos olhares que perscrutam o absurdo, a transparência ou as origens do cosmos, não se compagina num esquema académico previamente traçado. É peculiar, única, singular. Tal como a criação artística, afinal de contas. 

Teorias à parte, a personagem Eu sai do interior da ficção que protagoniza e dirige-se ao leitor que a tem entre mãos nas páginas dum livro. Convida-o a entrar na trama. Fala-lhe do enredo e comenta as opções tomadas pelo autor que lhe deu vida. A passagem dumas histórias-encaixadas para outras processa-se por meio dum entrecruzar de vozes, que têm na história-moldura uma porta de acesso privilegiada ao universo virtual do faz de conta que é assim. A transição de fragmentos recorre a uma bem-urdida teia de percalços editoriais e de atribuições apócrifas, superando com sucesso os perigos das mudanças constantes de argumentos lacunares ou de folhetins de cordel desirmanados, entregues periodicamente de porta em porta. Dédalo discursivo esboçado à maneira dum Jorge Luis Borges ou dum Edgar Alain Poe, arquitetos da palavra referidos por Italo Calvino no pré-texto que antecede a fábula propriamente dita, a que se pode agregar uma alusão implícita ao Ulisses de James Joyce, a tal epopeia em prosa distribuída por dezoito capítulos de diferente delineamento estilístico. 

É verdade que a história nuclear que une a totalidade das laterais até acaba em casamento. Um coup de foudre muito oportuno para selar o happy end ofertado aos dois leitores compulsivos de romances. Prémio de consolação pouco sedutor para quem gosta de imitações de vida com princípio, meio e fim. Por esta ordem ou por outra. Desconfio que o próximo livro que ler terá de obedecer a este triângulo operacional. É clássico e tem funcionado lindamente nos dois últimos milénios de devir poético do género. Porque a missão de ser leitor dispensa, lindamente, a missão de ser escritor. Num mundo tão complexo como aquele em que os heróis da ficção nos tentam copiar a todo o custo, a vitória do ócio sobre o negócio é uma hipótese que não se deve descartar do nosso horizonte de expetativas.

2 comentários:

Tina disse...

E nesta noite de inverno, senti-me eu uma viajante privilegiada ao ler esta magnífica recensão, que me traz de regresso o prazer da leitura deste livro de Italo Calvino.
Há alturas na nossa vida que sentimos com mais intensidade o que lemos / vivemos, quiçá por uma luta constante com o dia a dia que nos permite desfrutar com maior intensidade o que se nos oferece.
Agradeço ao Prof. Artur esta magnífica partilha, uma das suas lições habituais com as quais muito tenho aprendido. Bem haja, pois esta viajante, nesta noite de inverno de lua cheia meio velada pela neblina, conseguiu sublimar vivências recentes que só com leituras assim criativas e pedagógicas terá o benefício de contribuições perfeitas para atravessar o inverno do nosso descontentamento...

Artur R. Gonçalves disse...

A missão de se ser leitor dispensa, lindamente, a missão de ser escritor. Assim é afirmado na recensão. Ironia provocatória a roçar o cinismo retórico. O comentário dum texto literário não necessita de ser comentado. Falta-lhe estatuto para exigir um tal empenho. As ideias contidas na análise é que poderão ser confirmadas ou refutadas. A qualidade discutível das notas críticas poderá facilmente dispensar o esforço de terceiros. As observações condescendentes dos amigos é que quebram um pouco esta tendência de calar aquilo que não merece a pena expressar por palavras escritas. Os agradecimentos reforçados são portanto meus. É bom saber que alguém nos ouve e dispõe um pouco do seu tempo para dizê-lo. Publicamente. As viagens pela literatura são também feitas dos diálogos travados pelos viajantes. Numa noite de inverno em que o sol já se pôs e a lua já está a caminhar para um novo dia, o fascínio dos percursos traçados por Italo Calvino voltou-me perene à memória, para me segredar que vivemos num mundo de histórias que começam e não acabam, para me ciciar que as viagens pelos universos da amizade se assemelham a histórias sem fim à vista…