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AGENDA

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11/12/09

ler e respirar 14

Luís Pacheco ou Rui Ramos?

Os dois!

Na Biblioteca Nacional inaugurou-se uma exposição (uma bela exposição!) sobre Luís Pacheco. É seu comissário Luís Gomes, um homem das arábias, um livreiro alfarrabista de mão cheia e um coleccionador. E um homem de cultura. Pacheco sai engrandecido desta excelente exposição que, por ironia, se realiza num dos locais que ele provavelmente zurziria mesmo que, como se sabe, Pacheco nem sempre encontrava o alvo justo. Todavia, ninguém pode negar que se tratou de um escritor interessantíssimo, de um editor fora do vulgar, de um agitador cultural ímpar, sobretudo se nos lembrarmos quando, onde e como começou.

Paralelamente, sempre sob os cuidados de Luís Gomes, a D. Quixote lançou em co-edição com a Biblioteca Nacional um sumptuoso catálogo onde está tudo ou quase. Trezentas e oitenta páginas ilustradíssimas, um regalo! Luís Gomes não se poupou a esforços, reuniu uma impressionante quantidade de livros, manuscritos, postais sei lá o quê.

Leitores, este catálogo é uma prenda de Natal fora de série e já está à venda. Apressem-se e aproveitem. Algum parente, com falta de imaginação pode ser estimulado a abrir os cordões à bolsa, que diabo.

Outro parente tão generoso como o primeiro pode aparecer com a “História de Portugal” debaixo do braço. É um tijolo, convenhamos, mas Rui Ramos, um dos autores e seu coordenador conseguiu o impossível: fornecer um handbook da história pátria rigoroso, inteligente, bem informado, sucinto quanto baste, enfim, um digno sucessor da velha experiência de Oliveira Marques que tanto marcou a minha geração. E lê-se bem, desenfadadamente, mesmo se o peso do livrinho seja apreciável. Sempre são cerca de mil páginas!

Com Rui Ramos são co-autores Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro. Malta nova, com genica, ainda bem. A edição é da Esfera dos Livros.

Bom Natal! Boas leituras!

05/11/09

ler e respirar 13


(Este texto é parte de um outro mais longo publicado no blog “incursões”. Não é meu hábito contrabandear textos (mesmo os meus) mas a Liliana insistiu em que o reeditasse aqui. As mulheres mandam (até ganham o Nobel!) pelo que não tive outra alternativa senão servir vinho velho em odre novo.)

Há Nobel e Nobel, basta escolher

O Nobel da literatura em si pouco me diz. Quantos premiados não estão, desde há muito, sepultados sob uma espessa capa de esquecimento e silêncio?

Claro que se pode sempre dizer que o esquecimento afecta também alguns dos grandes, Gide, por exemplo, de que em Portugal não deve haver actualmente uma única edição recente. Todavia, poder-se-ia retorquir que isso, esse ocasional desinteresse, tem mais a ver com a incultura de alguns, com a ganância dos editores que diariamente nos despejam toneladas de livros que só se vendem graças á publicidade, às capas berrantes, aos pagamentos (que os há) a livreiros para exibirem vantajosamente os seus subprodutos nas estantes mais à vista dos incautos.

Ora, há uns largos anos, mais propriamente em Maio de 93, numa surtida à livraria, caiu-me o olho num livrinho fino, modesto, sem capa apelativa mas com um título definitivamente extravagante: “O homem é um grande faisão sobre a terra”. Eu não sabia que aquilo era um provérbio da minoria alemã da Roménia e que apenas significava que, neste mundo, o homem se move tão deselegantemente quanto o voo do faisão. Isso aprendi com o livrinho, em tardia leitura, que –como é hábito – fiz muito tempo depois. Os compradores compulsivos arrastam consigo um deficit de leitura tremendo em relação ás pilhas de livros que vão acumulando. No caso em apreço foi um erro. Trata-se de um romance extremamente bem feito, melhor contado, em capítulos breves, densos, numa linguagem poética e, ao mesmo tempo, devastadoramente expressiva, quase coloquial.

Herta Müller, de que só li esta obra, ganhou este ano, para geral surpresa o Nobel. Os “derrotados” (se de derrotados se pode falar) terão sido, entre outros, Roth, Llosa ou Amos Oz, autores consagradíssimos, com obra extensa e notável. Pessoalmente juntar-lhes-ia Cláudio Magris um dos mais brilhantes exemplos da misteriosa literatura triestina, cidade que muito me seduziu e que atraiu intelectuais como Joyce ou Svevo (dois não premiados...).

Vale a pena ler esta escassa centena de páginas que uma editora corajosa (cotovia) publicou em 93 (há dezasseis anos!) e que não terá despertado grandes entusiasmos por cá. Não sei se ainda por aí circulam alguns exemplares para venda. E, no caso de circularem, se ainda custam oito euros (ou, como vejo no meu exemplar, 1680$00, que não era propriamente um preço de amigo para tão pouco livro.) mas, se permitem um conselho, vão por ele, é boa leitura, a letra é grande, a capa é de uma simplicidade desarmante e... (ao contrario de estrepitosas e recentes novidades) aquilo fala mesmo de nós, da nossa humana e mortal condição, e do que outros fazem de nós (ou tentam fazer, mas isso é outra história).

27/10/09

ler e respirar 12


A eterna juventude de um clássico

A editora “tinta da China” acaba de publicar a contra-corrente dos “best-sellers” indígenas que nos impingem, o extraordinário “Os cadernos de Pickuick” tradução um tanto ou quanto livre dos “Postumous Papers of the Pickuick club” um dos mais célebres títulos de Dickens (e dos que lhe rendeu mais dinheiro...).

Propor aos leitores este livros é a tarefa mais fácil e mais simpática que esta semana me cabe levar a cabo. Acreditem que este livro merece estar ao lado dos grandes, dos verdadeiros, dos “a sério”, sejam eles o Quixote, a Cartuxa de Parma, ou o À procura do tempo perdido.

De vez em quando faz bem ler um livro desopilante, um manancial da melhor picaresca inglesa, uma descrição do que me atrevo a chamar uma viagem iniciática. E iniciática a tudo: á vida, ao humor, a Dickens, e a nossa comum e mortal condição humana.

Eu tenho deste livro uma recordação nebulosa. Não admira: li-o há cerca de quarenta anos na velha edição da Romano Torres (sd) com o título aliciante de “As aventuras extraordinárias do sr. Pickuick”.

Ao ver esta nova edição, fui buscar o meu velho exemplar à estante e resolvi dar a mim próprio um presente para celebrar o “indian summer” já que reservo o S Martinho para as castanhas e o vinho novo. E portanto vou ler o livro convosco se é que vos posso convencer a embarcar com Pickuick, o estudioso da vida dos girinos numa lagoa cerca de Hampstead, os seus extravagantes companheiros do clube Pickuick, numa Inglaterra cheia de surpresas e aventuras com raptos, noivas, duelos, encontros imediatos do primeiro grau com toda a classe de pícaros e charlatães a que não falta uma espécie de Sancho Pança, ou de Passepartout (cito Verne, se me permitem).

Leiam este livro, comprem-no já, e terão sido mais, muito mais, do que escuteiros: é um grande livro, é uma pedrada no charco da edição tristonha que temos, é um verdadeiro e eterno clássico, está bem escrito e vão-se divertir como cabindas.

Ah, esquecia-me, ao comprá-lo, provam que é possível apoiar uma editora pequena interessada na cultura e não em mercadoria vagamente literária. Que grande programa!

12/10/09

ler e respirar 11


E se passássemos às coisas sérias?

Os leitores desculparão. Sei que em Faro, as eleições foram braviamente disputadas, que S. Macário deu à costa sem naufrágio nem males de maior e que tudo isso é excitante.

Todavia, para lá desses momentos de frisson eleitoral, dessa brevíssima pausa eleitoral, fica o resto. E o resto somos nós, a nossa circunstância, algo mais duradouro que ultrapassa em muito a vida da polis. E por aí começamos.

Na polis, na verdadeira, na grega, o teatro era muito mais do que um espectáculo. Era algo de sagrado. Algo que remetia para os mitos fundadores da cidade, para a eminente dignidade dos homens que se viram obrigados a criar a ética para responder ás acções imprevisíveis e desconcertantes de deuses que inventaram (e abusaram) todos os vícios.

O teatro, a alma da poesia, manteve intacto o seu esplendor, ao longo dos séculos. Riu-se dos poderosos em Roma, derrotou preconceitos pela voz do advogado Pathelin, exaltou as virtudes populares com Gil Vicente, o heroísmo anónimo de Fuenteovejuna, e por aí fora.

No recanto, por mais recôndito que seja, em que humanos se juntem, à débil luz de duas pobres brasas, o teatro acontece pela voz de um ancião, de um griot, de um comediante. Não admira: nós acreditamos nas histórias e no enorme poder que elas têm. Moldaram as nossas infâncias, fizeram-nos esquecer maus momentos e, quando acontecem num estrado á nossa frente, o milagre da palavra viva, toca-nos a todos e cada um numa absurda mas calorosa comunhão com o actor, com o poeta e com a multidão á nossa volta na noite matricial e cúmplice.

Em Portugal há uma editora, uma editora corajosa, impar, com um catálogo exemplar, que dedica ao teatro muito, quase tudo do que nesse domínio se publica entre nós. Hoje falaremos apenas de um desses milagres. Do milagre norueguês: Henrik Ibsen. Um autor do século XIX que morre nos alvores do século XX. Um autor cuja radical modernidade se mantém intacta, pese embora o forte pendor simbolista de muitas das suas obras. Ibsen, exilado voluntário, conseguiu causar escândalo na estreia de praticamente todas as suas peças. A coragem, a depurada poesia, a audácia, a denúncia do provincianismo dos valores vitorianos ( estamos no século XIX!!!) foram constantes da sua vida.

Seria bom poder ver as suas obras todas em palco. Até lá, há na “cotovia” (passarinho melodioso e simpática) três belos volumes de “peças escolhidas”. Vale a pena. Vale mesmo a pena. E parece que a editora pondera vender os três volumes num pacote económico. Se assim for, nem hesitem. E se não for, paciência: o prazer também tem um preço.

22/09/09


Regresso com uma história (e uma tulipa)

Estão a findar os dias de sol e calor. Pelo menos é isso que manda o calendário e, de certo modo, as noites já são frescas, o dia desponta mais tarde, e a cidade está invadida por gente que se dirige para o trabalho indiferente aos cartazes (qual deles o pior) que apelam ao voto dos portugueses.

Eu comprometi-me com a Liliana a ir dando notícia de livros interessantes, que valham a pena, de livros que façam a diferença no meio dos quase cinquenta mil que se editam ou reeditam anualmente. Comprometi-me, mesmo, a passar pelos best-sellers (bons ou maus) sem dizer água vai. Enfim, fui promovido a ajudante honorário da livreira, o género de cavalheiro que está ao balcão, na cavaqueira, e que sugere ao leitor de passagem um livro que provavelmente escaparia a este. Isto, caros leitores, é mais um privilégio da idade do que um reconhecimento do meu eventual bom gosto. Mas hoje, não recomendo livro algum (ou melhor, recomendo, sem mais, um John dos Passos acabado de sair: Paralelo 42, o primeiro volume de uma trilogia de altíssima qualidade, escrita trepidante de um intelectual comprometido com o seu tempo e o seu mundo, como alguma vez poderei contar) porque vos quero contar uma história de livros. Aliás duas.

Hoje mesmo, nesta cidade que só por ironia se pode chamar “invicta” (foi conquistada por todos os exércitos que a atacaram, à excepção do miguelista, durante as guerras liberais.) fui por uns livros constantes do catálogo de um dos bons alfarrabistas portuenses. Quando me dispunha a pagar, dei-me conta que não trazia dinheiro suficiente, pelo que tive de procurar uma caixa multibanco. A primeira a que me cheguei estava em greve: não há nada para ninguém era o recado que depois de farta trabalheira com o cartão, os códigos, a indicação da quantia pretendida, nos surgia. Lá tive de procurar outra caixa e, para que esta peregrinação por uns morabitinos que brevemente deixariam de me pertencer valesse a pena, regressei por um caminho diferente. Onde havia um outro alfarrabista. Bem, já que aí estás... e pimba em três minutos contemplava assombrado um livro bonito da Imprensa Nacional com um título tentador: “cinco imagens para Nemésio”. E dentro, oh espanto! Cinco serigrafias (de uma série de 250) lindas de morrer e assinadas pelo Nikias Skapinakis. O Preço (em letra gorda mas já com um desconto de amigo) atirava para os 250€, cinquentinhas por peça. Convenhamos que, pese embora a crise, aquilo era de borla, enfim, era barato, muito barato. Duvido que conseguisse uma pelos 250 do total, quanto mais as cinco. A livreira, era uma livreira, benza-a Deus!, simpática e velha conhecida, disparou “leve e paga quando puder” que eu, já lhe explicara que levantara a massa que trazia com o cartão, pelo que não podia, hoje, ir por mais dinheiro. A coisa, dita assim, é como ditar azeite sobre a chama. Eu, que já estava perdido, nem protestei, meti o livro debaixo da asa e ala que se faz tarde.

Cheguei ao primeiro alfarrabista, paguei e dispus-me a dois dedos de conversa.

Então não é que olho para o chão e dou com um “Tableau de Paris”, dois volumes sumptuosos, mil e quinhentas ilustrações, folhas com cantos dourados enfim uma perdição. Isto quanto vale?, perguntei apenas para fazer conversa. Quando me responderam “cem euros” ia caindo. Se este era o “Tableau...” de Edmond Texier, editado em 1852 e mencionado na Chapitre a 1582 € e noutras instâncias a preços que vão desde 499 a 1500 € então algo de milagroso se passava por ali.

Era exactamente o Texier. Num estado bom que só não era muito bom porque as capas tinham alguns picos em baixo, do uso e da velhice. Por dentro uma beleza. Avisei lealmente o meu amigo alfarrabista que me parecia que o livro devia ser muito mais valioso. “cem euros e nem mais um cêntimo”, retorquiu-me. Se é assim...

É claro que desembolsei 350 euros. Mas também é verdade que, se quisesse vender agora mesmo as minhas duas compras obteria, já o confirmei, três ou quatro vezes mais. Todavia isso não sucederá pela razão simples, mas obscura para os filisteus, que estou louco por ver as serigrafias na parede do escritório enquanto irei lendo com vagar e volúpia o tableau

*na gravura: uma das serigrafias mencionadas.

27/07/09

ler e respirar 9

Um dos melhores meses de Agosto dos últimos anos, passei-o a ler em trabalho. Explico-me: um editor amigo, sabedor de alguma das minhas manias e idiosincrasias literárias propõs-me que lesse uma tradução, pagando-me para o efeito uma soma bastante agradável.

Terá sido a primeira vez que ler foi, para mim, um trabalho pago. Munido, portanto, de uma edição castelhana, de altíssima qualidade, agarrei-me á tradução do “Quixote” e com dois marcadores, um azul e outro vermelho, mudei-me para as Rias Bajas, onde consumi doses excessivas de pimentos do Padrão (uns picam outros não!), ensaladilla, peixe grelhado, mexilhões ao natural, muitas saladas, mais mexilhões, variadas espécies de outros mariscos, empanada, bacalhau á biscaínha (na Galiza!), paellas e arroces divinos, mexilhões de novo, enfim, uma orgia a que só faltaram, por razões evidentes, o porquinho e todos os seus derivados. O porco, um dos grandes totens da península, a par do touro, não faz boa companhia no Verão. Nem o famoso “lacón con grelos” comida invernosa por excelência.

Portanto, o quixote. Pela décima ou décima primeira vez, desde uma ediçãozinha para crianças até á saborida tradução-traição de Aquilino. Anotando imperfeições, formas verbais, irritando-me com alguns arcaísmos que, na minha modesta opinião, mereceriam um liftinga actualizador, mas enfim. Li e reli. Passei nisso tardes inteiras á beira-água, comovendo-me com as desventuras do cavaleiro, com a bonomia de Sancho, com a ingratidão dos presos que o fidalgo liberta, com a sólida toleima dos paisanos da Mancha que vêem moínhos onde porventura há gigantes.

Leitores, sei bem, que o entusiasmo é mau conselheiro. Que deveria antes usar um argumentário erudito para dizer por que é que se deve ler o quixote. Deve? Tolice. Não se deve ler nada excepto, eventualmente, a literatura inclusa nos pacotes de medicamentos. Ler é um prazer, uma viagem à bolina, uma segunda vida, um momento de evasão, nunca um dever.

Este cavaleiro da triste figura cavalga desde há quatrocentos anos! Ainda nem tinha secado a tinta da primeira impressão e já estava a ser traduzido em inglês, francês, alemão. Apareceu logo uma segunda parte falsa que o próprio Cervantes teve de combater publicando também ele uma continuação da aventura. Afortunadamente!

O resultado aí está. A liberdade que avança pels caminhos da Mancha até um ponto difícil de encontrar. Ou fácil. Basta, para isso, ler o livro. E agradecer-me, depois, o conselho. Ou, melhor: nem é preciso. Os leitores, os verdadeiros, trocam estas dicas só pelo gozo. Que começa assim: “num lugar da Mancha, de cujo nome, não quero lembrar-me……”

* o escriba retira-se por algum tempo para as rias onde repetirá não a leitura mas os excessos gastronómicos que referiu aí em cima. Boas férias, boas leituras.

20/07/09

ler e respirar 8

Fala do leitor contente
O menino que trazia o cão pela trela, ou melhor, o menino que o cão quase arrastava, parou à minha frente e perguntou-me: porque é que te estás a rir? Porque estou a ler um livro muito engraçado, respondi-lhe. É uma história? Sim, mais ou menos. Contas-ma? A três mesas de distância um pai embevecido ouvia esta conversa sem mover um pé que fosse para me salvar deste apuro. Ele come bem?, perguntei-lhe, numa súbita iluminação. Assim, assim, condescendeu o pater famílias com um sorriso amarelo. É um castigo para comer legumes..., lamentou-se. Ai tu não comes legumes? Não gosto, respondeu, displicente, o do cão. E de salada? Também não.
Ai então não te posso contar esta história porque só quem come imensa salada é que a pode ouvir.
Não sei se o convenci ou se foi o cão que, apiedado de mim, resolveu puxar o seu dono. E foram para o jardim medir forças.
E eu continuei a rir-me e a ler a “Fala da criada do Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Séverine numa noite do inverno de 1975 em Hyères” (porra que um título deste tamanho deixa um cristão a ofegar!).
Leitoras e leitores, não passem por este livro com indiferença. O Jorge Silva Melo, que não vejo há uns bons trinta e tal anos escreve bem, escreve inteligentemente, escreve escorreitamente, tem humor e é culto. Também é mais uma série de coisas mas agora o que me interessa é chamar a atenção para esta “pequena paródia” (JSM dixit) que é uma coisa que nos põe de bem com a literatura, com o mundo e até com ... não com a senhora da educação também seria demais. Mas pelo menos durante o breve tempo de leitura a gente até pensa que vive num país culto e eficiente. Querem mais?
A edição é dessa excelente passeriforme da família dos alaudídeos, o mesmo é dizer da Cotovia, uma editora de truz que ainda por cima tem a sede na loja que foi da antiga livraria opinião em Lisboa. Bons tempos e boas leituras... e tantos amigos.

*este texto não é original pois foi publicado no blog incursoes. todavia o autor queria muito falar deste livrinho e achou que os leitores algarvios - gente culta e marítima - não se iam importar com a importação de um texto de outro blog para este pátio.

** na gravura: uma das Noailles. Gente fina, e culta, é outra coisa.

13/07/09

ler e respirar 7

A Sicília de outra maneira

Se Portugal fosse, do ponto de vista de séries televisas (já nem falo do cinema….) um pais normal, eu não me atreveria a falar deste autor. É que, correram em Itália, pela RAI cerca de dez ou doze filmes com as aventuras do comissário Montalbano. Darei também a referencia para quem quiser encomendar os filmes, aliás excelentes, e a melhor direcção italiana para os obter depressa e com segurança.

Hoje, e aqui, falaremos apenas dos livros.

Andrea Camilleri não é exactamente um desconhecido em Portugal, longe disso. Há que eu saiba, pelo menos, cinco livros dele editados pela Difel e não excluo que haja outros e até noutras editoras. A razão é simples: trata-se de uma série policial muito bem escrita, extremamente cativante, sem recorrer aos narizes de cera muito em voga quando se fala da Sicília, numa terra tão inventada que parece verdadeira.

Camilleri é um cavalheiro de provecta idade que só cerca dos setenta começou a publicar. De súbito, em pouquíssimo tempo, via seis ou sete dos seus livros, na lista dos dez mais vendidos. Não que eu me enterneça demasiadamente com estas explosões de devoção pública, basta ver com que lenha por cá nos aquecemos no que toca a best-sellers. Todavia, aqui, o clamor público é merecido: uma história sólida, uma linguagem viva, humor e, sobretudo, um par de personagens que, ao longo dos livros se vão tornando muito da nossa família.

O romance policial atravessa de alguns anos a esta parte um merecido momento de sucesso. À uma porque permite descrever uma sociedade bem melhor do que muitos romances tradicionais. Depois porque se libertou do “mistério” engenhoso com “M” grande e do detective sofisticado e omnisciente que, pelo menos no que me toca, desesperava o leitor por demasiado subtil.

No caso concreto estamos perante um comissário de polícia numa pequena cidade, bem na sua pele, guloso, sem ilusões quanto aos mecanismos do poder local e regional, tentando apesar de tudo levar a cabo a sua missão sobre um fundo de terra cansada de muita guerra (e a Sicília, onze vezes invadida por diferentes povos sabe-o bem) e enfrentando não só os seus específicos problemas mas também os que decorrem de um poder central distante e corrupto.

Camilleri que deu ao seu comissário o nome de Montalbano em homenagem a Manuel Vasquez Montalban tem no seu já vasto repertório mais duas outras séries que a critica apelida de “históricas”: uma dedicada aos mesmos locais mas durante a passagem do sec. XIX para o XX e outra mais próxima, sobre os anos do fascismo. Que eu saiba não estão ainda vertidas para o português. No entanto, o que há já chega para abrir o apetite e mesmo para o saciar, provisoriamente. A vossa excelente livreira fornecer-vos-á as informações necessárias. Por minha parte, resta-me recomendar calorosamente Camilleri. Fixem este nome: é boa literatura e, mesmo que isso pareça desqualificante, é boa literatura para o Verão.

Quem, porventura, esteja interessado nos dvd que referi, todos na série Montalbano, poderá encomendá-los em www.dvd.it (“Il comissário Montalbano”). Estão publicados doze títulos e dos primeiros dez há dois “cofanetti” de cinco títulos cada. Claro que a língua usada é o italiano mas isso já é convosco.

06/07/09

ler e respirar 6



Dois contistas de excepção

E, já agora, dois excelentes romancistas! Falo-vos de John Cheever e de Truman Capote, quase da mesma geração, ainda que Cheever seja mais velho cerca de treze anos. Aliás pouco terão em comum, for a o facto de serem americanos. Cheever pinta os subúrbios enquanto o sulista Capote começa pelas prosas poéticas mas rapidamente, graças, a “A sangue frio” começa a ser reconhecido pelo seu realismo. A fama surpreende-o pouco e torna-se mesmo um dos escritores mais em voga nos Estados Unidos e na Europa onde desde muito cedo começa a ser traduzido. Compulsei agora mesmo, a sua estreia em Portugal, “A Harpa de Ervas” (Estúdios Cor) e verifiquei que o meu exemplar foi adquirido há precisamente cinquenta anos.

Cheever demorou mais a atravessar o Atlântico. Creio que começa a ser falado já nos anos setenta ou primeiros oitenta, o mesmo é dizer que já escrevera grande parte da sua obra, pelo menos a mais importante.

Todavia, não é dos romances de ambos que venho dar notícia mas apenas, como prometera, no último folhetim, dos contos. Dos magníficos, saborosíssimos, extraordinários contos. Ora aqui está boa leitura para o Verão. Entre dois mergulhos lê-se descansadamente um conto. Salutar e abre o apetite para um peixinho grelhado e uma salada. Outro conto, uma sesta reparadora, um passeio ao longo do mar, muitos amigos, a cervejinha do fim da tarde e por aí fora. A estação quente pede leituras boas mas com a natural intermitência que a vida balnear provoca. Ora nessa conjuntura, ou se tem em mãos um grande romance que por força se quer ler, ou o melhor é recorrer ao conto, arte maior muito desprezada hoje em dia, cá pelo burgo.

Justamente andam por aí à venda duas edições excelentes de contos destes cavalheiros. Ambas com a chancela absolutamente recomendável da Sextante, editora que tem um excelente catálogo (mesmo se também publique alguns produtos menos interessantes mas de escoamento rápido. Aliás, o que interessa, o que me interessa, é que haja bons livros publicados. Se para isso também se trazem á duvidosa luz do dia escritos menores não me ofendo. Ninguém me obriga a comprar tudo o que se publica mas apenas aquilo que quero, de que gosto ou que amigos avisados me recomendam.).

Se a memoria não me falha estão disponíveis o primeiro volume dos “Contos completos” de Cheever e a integral dos “Contos” de Capote. São edições recentes e, ao que sei, o público terá preferido ler antes os cavalheiros e cavalheiras que se notabilizam na nossa televisão. O mundo é assim e não há volta a dar-lhe. Ou como dizia o meu avô: “se puseres na Ribeira duas mesas de comida uma com iscas de fígado aldrabadas e outra com caviar podes ter a certeza que cai tudo na primeira e a segunda com sorte terá um só (feliz) comensal.”

Leitores, mesmo que um democrático e patriótico gosto pelos petiscos tradicionais seja de louvar não se esqueçam que há mais cozinha noutros lados. De comer e chorar por mais. E posso garantir que nos últimos meses não se publicou, no campo da ficção indígena, nada que se chegue ao Cheever ou ao Capote. Nada!

Para a semana falaremos de "policiais"

*esta secção muda de nome. de facto "ler e depois" é o título de um livro de Óscar Lopes e nem mesmo como homenagem (aliás justa) me atreveria a usar um título de outrem.

29/06/09

ler e depois 5

Genji monogatari

Pois é, meus eventuais leitores, mais cedo ou mais tarde tinha de vir atirar-vos este calhamaço. É que me lembrei que o Verão entrou por aí e há que preparar leituras estivais.
E nisso temos um pequeno problema: ou endoidamos definitivamente e compramos uma braçada de best-sellers que se parecem todos uns com os outros e no fim da leitura nos deixam a boca e a cabeça a saber a papel de música, ou partimos à descoberta de livros que, simultaneamente, nos divirtam, sejam de leitura amena e, já agora, que tenham algum interesse. Este, por exemplo, será o primeiro. Falarei nas próximas semanas de contos e de policiais. Para que se não diga que ler é uma chumbada. Não é mas para a praia há que ter pequenos cuidados.

Ora então “O romance do Genji”: um clássico japonês com cerca de mil anos de idade. Composto por uma dama da corte pertencente ao poderoso clã Fujiwara, o que não é dizer pouco. Como anedota, refira-se que a senhora escreveu não em caracteres ideográficos chineses, como aliás ainnda se usa mas em escrita fonética, o hiragana. Dizem as más línguas que este sistema de escrita foi propositadamente inventado para o sexo feminino que seria incapaz de entender todo o esplendor a escrita ideográfica chinesa! E, já agora, convém referir que apesar de escreverem “em chinês” os japoneses não sabem patavina de tal língua. Só que como a escrita é ideográfica também não precisam de saber…

Agora o que ficava bem, mesmo bem, era contar a história (as histórias, aliás)das aventuras do príncipe Genji e de toda uma série de personagens que povoam este admirável, sensível e irónico quadro duma época de grande refinamento. Mas isso seria roubar-vos metade do prazer. Às armas cidadãs e cidadãos leitores. Ao banho, às sardinhas e à leitura do Genji. Aposto que ainda me irão agradecer esta sugestão de leitura.

Para terminar aqui fica uma historieta verdadeira e primaveril. Em 1986 estava eu em Murnau, na Baviera a aprender alemão. Na minha casa estavam dois amáveis japoneses bastante mais novos que me tratavam com requintada educação. Para eles eu era “Marcero San” com direito a um par de vénias. Falávamos obviamente alemão entre nós. Sucede que, num dia, aparece pelo Goethe Institut uma inteira orquestra chinesa. Por desconhecidas razões os chins comunistas ou algo do género quiseram saber como é que funcionava a bolsa. E é aí que entra em cena este quadro surreal: eles perguntavam escrevendo os tais caracteres ideográficos aos meus dois amigos japoneses. Estes reconvertiam os misteriosos sinais em alemão medíocre para mim. E eu, péssimo conhecedor dos mecanismos da bolsa, retrovertia num alemão ainda pior as minhas respostas sobre essa base da civilização capitalista e ocidental. Um pagode! Os meus japoneses, a cada afirmação minha,exclamavam “Ho” em tom cavo e soturno e, zás, escrevinhavam o que parcamente entendiam em chinês. Os seus crédulos leitores amontoados do outro lado da mesa, chilreavam “Ha!” e “Ho!” mas em puro dialecto cantonês. E agradeciam imenso.



Isto passou-se há vinte e tal anos. Quase o mesmo tempo que a China tem de novo curso económico. Quem sabe se algum desses meus interpostos alunos absorveu os meus mais que duvidosos ensinamentos e hoje, esquecidos o fagote, o violino ou a trombeta, capitaneia uma indústria gigantesca naqueles cafundós.

Mais uma razão para lerem o Genji. Se eu consegui prender a atenção de meia centena de chineses com as aventuras da bolsa em versão lusitana, porque é que vocês não se divertirão com esta maravilhoso romance?


Adenda de Liliana:
O Romance de Genji (Primeira Época: 33 capítulos)- Ed.Exodus,2009-PVP 24€
O Romance de Genji (Segunda época: 21 capítulos)- Ed.Exodus,2009-PVP 24€
O Romance de Genji - Ed. Relógio D`Água, 2008 - PVP 19 €

15/06/09

ler e depois 3


A segunda feira é um dia (quase) igual aos outros

Num momento de destempero garanti aos leitores de outro blog que às segundas escreveria uma nota de leitura aquí. Razões? Muitas e nenhuma: Para corresponder ao amável convite da Liliana, porque antes da segunda há o que se chama um fim de semana que a pessoa prudente usa com parcimónia e fugindo da multidão, por não sei mais que razões incluindo obviamente a “por que sim”.

Claro que são seis e meia da tarde de segunda, chiam no corredor as botas do moço da tipografia e eu não estou com vontade de dizer mal do bey de Tunes (se é que cito correctamente o formidável Eça). Que escrever já que me meti de pés e mãos nesta empresa? Que escrever quando resolvi intitular a crónica como em cima se lê?

S. Jacques Prévert veio, subitamente, em minha ajuda. Um verso, um verso grande como o mundo, um verso que remata o primeiro poema das extraordinárias “Paroles” e que (por pura preguiça de ir pelo livro) traduzo apressadamente de memória do francês. “…os que envelhecem mais depressa do que os outros/ os que não se baixaram para apanhar o alfinete/os que morrem de pasmo ao domingo á tarde/ porque vêem chegar a segunda feira/ e a terça e a quarta e a quinta e a sexta e o sábado/ e a tarde de domingo.”

Este verso termina um dos mais geniais poemas do seculo XX a famosa “tentative de description d’un diner de têtes…” longa composição-inventário datada de 1931 mas actualíssima.

Ora, para os preguiçosos em línguas estrangeiras, para os que nem sequer as falam patrioticamente mal, há desde há ano e meio, dois anos, uma edição portuguesa dos Poemas de Prévert. Chama-se “Palavras”, (Sextante) não há que enganar e é uma preciosidade que o cultíssimo João Rodrigues entendeu editar. Este JR é um cavalheiro de alto gabarito, um pronto socorro cultural, um editor de mão cheia, um amigo muito querido e antiquíssimo e edita os livros de que gosta sempre que pode que isto da edição e do mercado editorial é pior do que a arena do Coliseu romano nos seus melhores dias. Leitores já não há desculpa para desconhecer Prévert, Jacques de seu primeiro nome, um autor solar, um poeta com humor, um cineasta de mão cheia, enfim uma criatura para conhecer e amar.

Isto deveria ficar por aquí mas não. É que me veio à cabecinha pensadora um outro poeta, português este, universal como verificarão quando o lerem, uma voz solitária (mas não única) no panorama literário, um criador que vai pacientemente assentando uma obra excepcional de inteligência, de pausado lirismo (ai se ele me lê!…) e de re-invenção verbal. Ou: como usando palavras de todos os dias, escassas metáforas, um discurso simples e grave, e daí sair o lume de um poema. Falo, de Manuel António Pina, um poeta com obra desde fins de 60 (1969: ano de “ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde”, livro vertiginoso que imediatamente lhe grangeou um grupo entusiástico de leitores que, contra o costume, tem crescido a pontos de MAP ser quase um poeta conhecido. Dele são também crónicas (as primeiras reunidas em livro: “O Anacronista”, Afrontamento) que agora saltam dos jornais e deambulam pela internet: os bloggers roubam-nas alegremente e espalham-nas a esmo. MAP é um dos mais finos e interessantes comentadores do nosso quotidiano e exerce essa subtil e dificil arte com ironia certeira indignação cidadã. Um regalo.

Os poemas andam pela Assírio e Alvim e, ao que sei ainda não há edições completamente esgotadas: leiam-se “Poesia Reunida”, 2001, “Nenhuma palabra,nenhuma lembrança”, “Os livros”, 2003 ou, melhor ainda, vão por ele, estante atrás de estante, abram o livro, também há prosa e da melhor para já não falar na secção de literatura infantil, experimentem, saboreiem, riam, gozem esta língua, este estilo este terno pudor e depois, depois, é só passar pela caixa. Há dinheiro que é bem gasto.

Não resisto a transcrever “café do molhe”:

Perguntavas-me /(ou talvez não tenhas sido / tu, mas só a ti /naquele tempo eu ouvia)/

porquê a poesia/e não outra coisaqualquer:/ a filosofia, o futebol, alguma mulher?/eu não sabia /

que a resposta estava/ numa certa estrofe de/um certo poema de/Frei Luis de León que Poe/

(acho que era Poe)/conhecia de cor,/ em castelhano e tudo./ Porém se o soubesse/

de pouco me teria/então servido, ou de nada./Porque estavas inclinada/ de um modo tão perfeito/

sobre a mesa/ e omeu coração batia/ tão infundadamente no teu peito/ sob a tua blusa acesa/

que tudo o que soubesse não o saberia./ hoje sei: escrevo/ contra aquilo de que me lembro,/ essa tarde parada, por exemplo.

Enquanto os poetas, estes poetas, existirem, ou os seus livros, as tardes de domingo, poderão ser melancólicas, chuvosas, quentes, mas nunca, nunca, tristes ou aborrecidas.

* gravuras: capa de Palavras e MAP com uma das suas gatas

07/06/09

ler e depois (2)

O Nuno, a Maria do Carmo e o Joaquim

Conheci-o através de “O Tempo e o Modo”, onde desde o primeiro número o Nuno colaborou. Uma prosa certeira, uma crítica implacável, alguma ironia e outro tanto de humor. Tudo isto numa secção da revista que se chamava, e bem, “noticiário crítico”.
Depois, já não recordo como nem quando, tive o prazer de o conhecer. Conhecimento fugaz, devo dizer, que eu vivia em Coimbra e o Nuno em Lisboa. Mas lia-o, pois ele desmultiplicava-se em textos. Ainda recordo algumas críticas de cinema, num tempo em que isso era a sério. Aliás, tenho a vaga ideia de que ele terá colaborado nos “Verdes Anos” do Paulo Rocha, um dos filmes mais marcantes do que ilusoriamente se chamou o “novo cinema português”.
Todavia, foi para mim e para muitos mais, decerto, “A noite e o riso”, um livro incendiário, uma escrita inventiva, um delírio controlado, humor, ar freco na literatura nacional.
Eu deveria, agora, dedicar-me a uma exaustiva crítica mas, francamente, não é este o momento e muito menos o lugar. Os leitores que me aturam não precisam de baby-sitter literária e se forem como eu suponho, querem mas é saber as novidades e depois decidirão. Aliás, haverá prazer maior do que entrar na livraria, na nossa livraria, agarrar no livro, folheá-lo, rir sozinho, comover-se, mostrar à amiga ou ao amigo e depois, num gesto largo e moscovita, avançar sobre a caixa e soltar pesarosamente os maravedis necessários à compra do tijolão “Obra Completa”?

E é aquí que torço, metaforicamente, o nariz. Não que não seja evidente o interesse em publicar o Nuno. Todo, se entenderem. Porém, convenhamos, um tijolo é um tijolo e juntar os cinco importantes textos num único volume, tira-nos um par de gozos, desde meter o book na algibeira, para o ler em qualquer sítio, até esta pequena coisa que é ir comprando devagar, à medida dos humores e dos cacauzinhos, os livros, um de cada vez, em ordem dispersa. Ou de receber qualquer um deles como prenda de anos, da namorada, dos filhos da esposa amantíssima ou até de algum membro da “Causa Real” (poderia ser o Dr. Teixeira Pinto) por engano quanto ao autor.
Que este Nuno, meninas e meninos, é Bragança dos verdadeiros, dos que reinaram vai para mais de um século. Só que ele se estava nas tintas para o facto. Escrevia, e que bem!, lindamente. Eu não resisto a aconselhar além da “Noite…” o belíssimo “Directa”. É que o “Directa” diz muito a este escriba que, em seu tempo, também exerceu de passador de fugitivos políticos. Nisso, e só nisso, eu fui colega do Nuno. Aquele livro ressuma realidade, para além de ser uma bela história e de estar muito bem escrito. Mas, a menos que andem desesperadas pelos alfarrabistas, só vos resta a compra de “Obra completa” de Nuno de Bragança.

E, agora, uma novidade, uma meritória novidade. Que o não é. A “Almedina” (invenção genial do meu querido e velho amigo Joaquim Machado) publicou há tempos “Angola, processos políticos da luta pela independência”. A autora, Maria do Carmo Medina, é advogada e defendeu com invulgar coragem e rigor e incalculável risco, vários presos. Deste pequeno canto, saúda-a um colega que também fez uma perninha nessa honrosíssima actividade.
Leitoras e leitores. Leiam este livro, pelas almas. Convém saber como as coisas eram lá, e como a pide lá era tão facínora como cá. Como nota curiosa, este livro traz em anexo documentos importantes para a nossa história.

E por aquí me fico. Não, ainda não. Falei do Joaquim Machado, um livreiro de mão cheia e um editor de “sebentas” coimbrão. Fui amigo dele e recordo-o com alegria. Era, além do mais, um vendedor de livros. Da sua livraria em frente à “Brasileira” ele carrgava embrulhos de livros para o nosso café. Vinham endereçados ao Américo Caseiro, ao Cunha Pinto (o Leonel Brim de “Talvez Pinóquio” e “Magistério e Desgosto” dois textos de primeira água, de primeiríssima água) e a este vosso criado. Eu bem lhe dizia “Ó Joaquim Machado eu não tenho dinheiro para pagar tudo isto, homem de Deus!”. E ele, num sorrizinho sacana e amigo: “Há-de ter, há-de ter, eu espero.” Paguei tudo até ao último tostão. Só não paguei a confiança, a amizade e o excelente critério do Joaquim. Só para exemplificar: foi ele que me vendeu os três calhamaços das “Mytologiques” de Lévy-Strauss. Arriscou forte dinheirama, olá se arriscou. Foi assim que o Joaquim criou uma grande rede de livrarias. Bom trabalho, Joaquim, excelente trabalho.

* a gravura é uma fotografia do Joaquim Machado. Sem livreiros não há editores nem autores que se safem. as livrarias são faróis, são casas de amigos, são como o "Espaço...", pontos de encontro, de alegria de convívio.

01/06/09

ler e depois (1)

Honrado com um convite inesperado da Liliana, apresenta-se este leitor que em seu tempo editou livros (Centelha), vendeu livros ("Erva Daninha", Porto, "Unitas", Coimbra), escreveu livros e, sobretudo, comprou e compra livros à pazada.
Leitor compulsivo, portanto, e impenitente (como consta de alguma modesta colaboração no blog "Incursões" agora sediado no sapo) virei até aqui trazendo pequenas notas de leitura, sempre sobre livros que existam no mercado e, especialmente, no "Pátio de Letras" já que é o blog deste exaltante espaço de cultura que fidalgamente me acolhe.
Ainda não sei bem como é que levarei esta "carta a Garcia" tanto mais que, como disse, sou um comprador compulsivo, sofro com a falta de tempo para ler metade do que compro, tenho remorsos pelos livros que se vão amontoando, acusadoramente, à espera de vez e sonho com um dia de 30 horas ou com o milagre de regressar vinte anos atrás, época em que conseguia varar noites inteiras a ler que nem um desesperado.
Para estreia, vejamos as novidades, algumas novidades, editoriais sobre a história nossa, portuguesíssima, do século XIX.
Escolhi esta época porque se alguma fronteira política, social e até religiosa há na nossa história mais recente é esta: entre as invasões francesas e o cabralismo mudou tudo ou, pelo menos, mudou muito: o antigo regime afundou-se com a fuga da família real, a invasão, as guerras civis (e a resistência aos franceses foi isso mesmo) e o movimento constitucionalista. Desde a Constituição vintista à Carta outorgada e às sucessivas revisões constitucionais.
Daí que vos proponha sem mais preâmbulos três textos igualmente interessantes, profundamente diferentes mas que, valendo cada um de per si, juntos dão ao leitor prudente um panorama vivo e riquíssimo desta transição.
Comecemos pelo óbvio: José Acúrsio das Neves, "História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino" (Afrontamento). É um calhamaço com mais de quinhentas páginas, escrito numa linguagem viva onde perpassam, sob a pena de um conservador, muitos dos traços das elites que lutaram contra os franceses que instruções reais e algum sentimento liberal tinham recebido com demasiado preito de menagem.
De seguida, e para não perder tempo, a magnífica síntese de Vasco Pulido Valente, "Ir pró Maneta" (Aletheia). VPV, seguindo o guião de Acúrsio, demonstra como sob a guerra contra o invasor perpassa uma outra bem mais profunda e civil. Digamos que isso explicará, e bem, o clima retratado por Maria de Fátima Bonifácio em "Uma História da Violência Política, Portugal de 1834 a 1851" que, de certo modo mostra outra vez que os "brandos costumes" tão apregoados por alguns abencerragens do jardim lusitano, não foram sempre assim tão inócuos.

Três livros prometi mas nesta matéria isto é como as cerejas. É que MF Bonifácio, autora de uma excelente biografia de D. Maria II, tem outros dois livrinhos, mesmo a pedir que os leiam, sempre sobre este inesgotável século XIX: "O século XIX português" (Imprensa de Ciências Sociais) e "História da Guerra da Patuleia, 1846-47" (Estampa).
E Vasco, sempre ele, publicou recentemente uma recolha com o título "Portugal ensaios de história e de política" o primeiro dos quais versa precisamente este tema de que venho falando. Aliás VPV tem no seu extenso rol de obras duas outras sobre temas conexos ("Os Devoristas, a revolução liberal 1834-1836", Quetzal, eventulmente republicado na Aletheia) "Os militares e a política (1820-1856)" na Imprensa Nacional.

E chega! Bem vos adverti que sou um leitor impenitente e compulsivo. Mas, como diz algum familiar meu, antes isso do "vinho, jogo e drogas". Vá lá que não falou em "sexo"...