ABRIMOS NOS DOMINGOS 15 e 22 DEZ.

Aberto de 2ª a Sábado
das 10h às 14h e das 15h30 às 19h30
abrimos à noite para as sessões agendadas

AGENDA

Mostrar mensagens com a etiqueta lidos os livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta lidos os livros. Mostrar todas as mensagens

03/03/13

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor, uma sedutora de anjos, poetas & heróis

«Habituei-me a ser criticada | por ler livros, | por falar de ciência, de política e de filosofia, | por saber inglês e latim, | por ter demasiadas Luzes para uma mulher. | Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem...»
Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)
Quando no início da década de 70, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa publicaram as Novas cartas portuguesas (1972), a polémica instalou-se no reino cadaveroso ou oásis de mediocridade consentida em que o país dos brandos costumes e jardim à beira-mar plantado se havia transformado. As autoras foram levadas à barra dos tribunais, o livro foi proibido pela censura e o processo das Três-Marias foi convertido num caso singular de mediatismo nacional e internacional. As traduções nos mais diversos idiomas proliferaram e as escassas reedições efetuadas após a queda do regime ditatorial têm teimado em manter a obra sistematicamente esgotada. A questão da condição feminina, equacionada nesse texto composto de fragmentos narrativos, parece continuar a amedrontar a política editorial seguida entre nós, afastando o público leitor dum contacto mais estreito com essa réplica coetânea dos amores marginais revelados nas cinco Lettres portugaises (1669). As tais que Mariana Alcoforado, a religiosa do convento da Conceição de Beja, terá composto e endereçado ao Chevalier de Chamilly, o amante francês que a seduzira e abandonara. 

O efeito caleidoscópico de testemunhos convocados pela arte de efabular o universo feminino da criação estética volta à ribalta da república das letras, cerca de quarenta anos volvidos, pelas mãos de Maria Teresa Horta em As luzes de Leonor (2011), longo mosaico ficcionado de prosa poética e poesia integral, em que cada frase é um verso e cada parágrafo uma estrofe. A quinta neta da marquesa de Alorna esboça, neste relato polifónico, uma viagem de revisitação à mulher, poetisa, política, sábia e sonhadora que também foi sua avó, personagem multifacetada, imaginada em forma de papel e tinta, para dar corpo a uma personalidade controversa, recriada através de depoimentos autênticos pronunciados a muitas vozes e sentires. As Marianas epistolares, moldadas pelo barroquismo seiscentista vigente durante as guerras de restauração da monarquia lusitana, saem de cena e dão lugar às Leonores novelescas, forjadas por um iluminismo combativo ainda em construção nas antevésperas das guerras peninsulares movidas pelo império napoleónico. 

Os diálogos | monólogos travados à distância de sete gerações são gizados com o recurso constante a documentos oficiais e particulares, feitos e refeitos, repartidos por mil e tantas páginas bem contadas, vinte e cinco capítulos enquadrados por um prólogo e um epílogo, contextualizados por meio século de histórias dentro da história portuguesa e europeia, a promover a passagem do despotismo aristocrático para o liberalismo constitucional. As cartas, diários, cadernos, citações e poemas entrelaçados no romance outorgam um protagonismo estrutural às Raízes | Memórias discursivas, evocadoras de Leonor de Távora, a marquesa executada por ordem do Marquês de Pombal em Belém, ministro plenipotenciário do rei D. José, e de Leonor de Almeida, a condessa expulsa do país por ordem de Pina Manique, intendente-geral da polícia do príncipe-regente D. João. Pelo meio desta escrita neorromântica, tecida de subjetividades dispersas, ficam os lamentos líricos dum misterioso Angelus, ser alado seduzido pela luminosidade etérea de Alcipe, a sedutora de anjos, poetas e heróis. 

A reconstituição-reconstrução da vida de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, encetada ao longo de treze anos de escrita por Maria Teresa Horta está incompleta. A moldura escolhida para pintar o retrato impressionista da defensora das Luzes está balizada pelos tempos conturbados que marcaram o Processo dos Távoras e antecederam o Bloqueio Continental. Efemérides datadas com repercussões duradouras dentro e fora das fronteiras nacionais. Desconhecemos se a neta da Condessa de Oeynhausen-Granvensburgo, valida da rainha-louca D. Maria e dama de honor da princesa-regente D. Carlota Joaquina, frequentadora das cortes de Maria Antonieta de França e Maria Teresa de Áustria, animadora dos salões cultos de Viena, Paris, Madrid e Lisboa, retomará a tarefa hercúlea de traçar os passos da avó nos derradeiros tempos da sua existência de exílio forçado em terras estranhas e de retiro escolhido na terra natal. Nada nos impede porém de acreditar que a mão sem peso da poetisa iluminista aflore de novo o cimo do ombro da poetisa iluminada e que as confidências das duas se voltem a ouvir apesar dos dois séculos de silêncios que as separam.

14/01/13

George Steiner, Anno Domini: três histórias de guerra em tempo de paz

«Recollection came upon him vivid and exact. Quis viridi fontes induceret umbra?–Who shall veil the spring with shadow and leaf? […] As the pain slunk back to its lair, that line of Virgil had sung in his bruised thoughts. With it the gate of memory swung open and behind it drowsed the rust-green gables and slow canals of the North Country.»
George Steiner, Anno Domini. Three stories of the war (1964)
Falar dalguns autores e obras torna-se, por vezes, uma tarefa particularmente complexa. Sobretudo quando nos referimos a alguém que se tem vindo a destacar em áreas tão diversificadas como a tradução, o ensaio, a crítica, a pedagogia, a filosofia e a ficção. É o que se passa com George Steiner, escritor e académico anglo-franco-americano, nascido numa família austríaca de origem judaica, fluente em três línguas modernas (alemão-francês-inglês), duas clássicas (latim e grego) e sabe-se lá que outras mais. Sobra-nos a escolha das temáticas a desenvolver e falta-nos o engenho e arte para as comentar como merecem. Fico-me por um conjunto de histórias de guerra contadas em tempo de paz, publicado há quatro décadas atrás e só agora vertido para português com o título algo provocatório de Anno Domini (1964 | 2008). O habitual atraso a que já vamos estando habituados.

A revisitação dos palcos do drama faz-se através de três atos autónomos de temática comum, feita à boa maneira helénica das trilogias trágicas dos séculos dourados da cultura ática antiga. Os atores do «Sem regresso», d’ «O bolo» e do «Delicioso março», munidos das máscaras, túnicas e coturnos adequados, entram em cena para revelar aos espetadores desse teatro especial, alojado nas páginas dum livro de contos, os fragmentos de vida-morte contidos nas peças convocadas das sombras exumadas do passado, com o firme propósito de iluminar eficazmente o presente. A catarse, imperiosa nestes casos, faz-se através do diálogo travado entre a lembrança e o esquecimento, entre a inscrição e o ostracismo, entre as luzes e as trevas, para que o mundo espetral dos caídos habite a memória futura dos seus filhos, para que as feridas causadas pelas partes beligerantes sejam saradas, para que as cinzas do holocausto não voltem a ocupar no porvir próximo os projetos dos homens.

O primeiro auto contado da coletânea está ancorado na velha questão franco-germânica das hegemonias europeias perdidas. Cinco anos após a invasão aliada da Normandia, o ex-capitão alemão Werner Falk enceta uma viagem «sem regresso» a Harfleur, à quinta Yvebecques, único lugar onde se sentira em paz em tempo de guerra. A ilusão de apagar os fantasmas dessa época conturbada é rapidamente desfeita e a vitória do ódio sobre o amor acontece. O coro de aldeãos aplaude o sacrifício perpetrado e abandona a skene a entoar o cântico final do éksodos.

O cenário e muda-se para Liège, para a casa de repouso de Saint-Aubain, refúgio dum maquisard americano de Belmont e duma judia de Bruxelas. Os dois jovens esquecem-se das dificuldades impostas pela ocupação nazi da Bélgica, entregam-se um ao outro e acabam por ser vencidos pela conjuntura antissemita então vigente. O sobrevivente regressa no pós-guerra ao local onde fora feliz por breves instantes. Leva consigo uma réplica d’ «o bolo» de moka que era servido aos hóspedes nas tardes de domingo. Mas o coro das vozes alucinadas dos residentes perdera a aptidão de relembrar os nomes dos mortos em consonância legítima com a história.

O tríptico encerra no rasto do deus romano da guerra, subentendido num «delicioso março», o mês primaveril dedicado às artes marciais de Marte. A ação salta de Londres para Varsóvia, com referências ao Cairo e desfecho em Cracóvia, e é protagonizada por dois Padres do Deserto, ex-combatentes do exército inglês na grande guerra civil europeia que envolveu meio mundo ou talvez um pouco mais. Os amores impossíveis e interditos anteriormente focados dão lugar aos equívocos e marginais praticados à revelia das convenções que regem os relacionamentos consentidos entre géneros.

O fio condutor dos eventos representados ao público-leitor por palavras escritas pode ser entendido, neste contexto, como uma explicitação de três modos distintos de encarar o conceito de herói: a coragem de voltar ao local da catástrofe e aí ser imolado, a cobardia de fugir da fatalidade e ser poupado pelos deuses, a coragem de assumir as contingências da vida e sucumbir à cobardia do suicídio. Ironias trágicas à procura de soluções alternativas que deem novos sentidos à condição humana e incentivos ao livre arbítrio dos mortais de vencer os desígnios fantasiosos dos imortais. Agora e sempre, para que todos ergamos o dia-a-dia do nosso destino individual, nesta era comum, do senhor ou anno domini.

25/11/12

O evangelho de Jesus Cristo segundo José Saramago

«Sim, meu filho, o homem é pau para toda a colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare e ele para, ordenam-lhe que volte para trás, e ele recua, o homem, tanto na paz como na guerra, falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses.»
José Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo (1991)
Quando as leituras que fizemos no passado nos exigem releituras no presente, isso significa terem os diálogos travados em tempos idos com o autor permanecido inconclusos e abertos a novas conversas de atualização dos sentidos encobertos das palavras. Ajuste de contas das ideias feitas com as refeitas. As polémicas geradas em torno duma obra perturbam, por vezes, o prazer do texto e das escritas que lhes deram origem. As interpretações extremadas acabam por desviar a atenção do leitor e desvirtuar os significados implícitos/explícitos das mensagens, de trocar as linhas e as entrelinhas, lacunas que só uma revisitação efetuada no momento certo poderá esclarecer ou colmatar.
No caso concreto de José Saramago e d’O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), os fundamentalistas ortodoxos e políticos de pacotilha centraram-se em blasfémias anacrónicas e impiedades bafientas alegadamente lesivas da matriz religiosa do país, os críticos encartados mais exigentes deram-se conjuntamente as mãos e acusaram o escritor de ter sido pouco ousado no ato criativo e de ter trocado o maravilhoso cristão dos evangelhos canónicos pelo maravilhoso herege dos evangelhos apócrifos. Sem entrar em extremismos exegético-literários, fiquei então um pouco dececionado com o romancista, com a forma pouco realista como abordara o tema e deixei ficar o romance a repousar até hoje. Vinte e um anos de intervalo para arrumar as ideias e deixá-las atingir uma maioridade absoluta e desejada.
Queria ver o natural onde havia o sobrenatural. Topar o imanente onde achava o transcendente. Agora, contento-me em testemunhar o realismo mágico onde a alegoria assentou arraiais. A presença do insólito no relato acaba por acentuar ainda mais a profunda humanidade de Jesus. Facto singular que a vontade dos homens, perante a grandeza exemplar da sua conduta na vida, deificou com o decorrer dos séculos, confundindo a natureza mortal do filho de Maria e José com a natureza imortal de Jeová. O retratado, em contrapartida, prescinde da dignidade divina outorgada pelo senhor todo-poderoso criador de todas as coisas e escolhe a paternidade dum simples carpinteiro galileu desconhecido criador de meros objetos de uso quotidiano. O livre arbítrio terreno é chamado à colação e derrota sem ponto de retorno a predestinação celestial.
O evangelho de Jesus Cristo segundo José Saramago equaciona as fontes que o devir histórico nos legou e reescreve, com toda a minúcia permitida pela ficção, a biografia do filho do homem que recusou ser filho de deus. Efetua uma interpretação atenta dos mitos fundadores do monoteísmo cristão que estiveram na origem da moderna civilização ocidental e dá-lhe uma dimensão alternativa. Recupera o nome de Judas duma traição inexistente, dá a possibilidade a Madalena de amar e ser amada, permite a Maria e José a liberdade de constituir uma verdadeira família e devolve ao mentor involuntário duma religião ancorada no sacrifício e martírio do calvário o direito à mortalidade, o tal que os deuses sempre invejaram e os discípulos lhe roubaram para proveito próprio. As coordenadas maniqueístas do bem e do mal são alteradas, apenas para que a infabilidade dos dogmas seja questionada. É que as mãos que compuseram as versões escritas do sagrado são em tudo idênticas àquelas que produziram as profanas.
No ano em que José Saramago completaria o seu nonagésimo aniversário, a sua presença continua mais viva do que nunca entre nós. As incursões que façamos ao universo romanesco por si gizado serão sempre premiadas com novas e renovadas descobertas, com fartas e variadas pistas de leituras, com múltiplas e incontáveis formas de olhar o mundo real e imaginário que nos rodeia e nos define. Apanágio muito raro só alcançado por alguns, como será o caso dos inventores inatos dos heróis da imaginação, com os quais acabam por se confundir e fundir. Aqueles que desde os tempos imemoriais da criação artística vão dando sentido pleno à imortalidade, ao privilégio de viverem em espírito na memória coletiva dos povos.



09/07/12

Carlos Ruiz Zafón: histórias do prisioneiro do céu e da cidade dos malditos

«−Ay, qué bien. La verdad es que cuesta tanto encontrar hoy por hoy libros con un mensaje positive, de esos que te hacen sentir a gusto, y sin tantos crímenes y muertes y eso tipo de cosas que no hay quien entienda… ¿No le parece?»
Carlos Ruiz Zafón, El prisionero del cielo (2011)
O universo mágico do cemitério dos livros esquecidos voltou ao convívio do público leitor da aldeia global. Carlos Ruiz Zafón entra no santuário labiríntico das obras/autores votados ao ostracismo e recupera o título dum romance perdido de Julían Carax, para dar sequência à série literária que lhe deu renome internacional e parangonas registadas nos mass media dos quatro continentes. As aventuras e desventuras vividas pelos heróis e anti-heróis d’ A sombra do vento (2001) e d’ O jogo do anjo (2008) entram de novo em cena nas folhas impressas d’ O prisioneiro do céu (2011). Encontro há muito tempo esperado de velhos amigos/inimigos dos proprietários da livraria Sempere & Filhos, estabelecimento secular fundado em 1888 na rua Santa Ana da cidade condal, local de encontros e desencontros dos agentes transformadores dos sucessos fingidos em eventos possíveis, que dão sustentabilidade ao enredo e coerência à saga.

O regresso faz-se através de David Martín, autor amaldiçoado já nosso conhecido de romances góticos e de folhetins jornalísticos, coprotagonista por excelência deste terceiro ato da sequela. Condenado a ver o seu próprio nome apagado da república das letras publicadas, ele é o verdadeiro prisioneiro do céu anunciado na capa do livro, dado que se vê coagido a escrever sucessos comerciais em nome do seu carcereiro ou deus que tudo pode. É ele também que faz a ligação narrativa entre as duas gerações de livreiros centrais da efabulação, pai e filho, entre as duas metades do século xx convocadas pelo texto, separadas entre si pelos dramas humanos da guerra civil espanhola (1936-1939) e da segunda guerra mundial (1939-1945). As histórias dentro de histórias, como se de genuínas bonecas russas se tratasse ou de matrioskas ideadas com palavras, umas a remeterem para as outras, a saltarem alternadamente das décadas anteriores para as posteriores dos conflitos bélicos referidos, abonam-nos todas elas argumentos entrecruzados da história europeia recente, com um enfoque muito especial na cidade dos malditos ou das personagens-charneira das novelas em série pagas à peseta. 

Por vezes, pergunto-me como é que nestes nossos dias presentes da pós-pós-modernidade se pode continuar a gostar duma escrita feita de lugares comuns pintados de negro, que tanto se assemelha na forma e no conteúdo dos chamados romances de cordel com tramas de faca e alguidar, próprios dum ultrarromantismo novecentista que as estéticas naturalistas e realistas da Questão Coimbrã (1865-1866) e das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871) combateram acaloradamente nos alvores da primeira modernidade. A resposta tarda sempre a chegar e vem sempre associada a uma mesma solução. O fascínio transmitido pelas intrigas, mistérios e peripécias reside, sobretudo, no ritmo vertiginoso como são apresentados ao leitor, faminto que está de mais charadas, enigmas e crimes para desvendar ou devorar. As maiores pérolas escondidas | reveladas por Zafón manifestam-se através das sonoridades conferidas ao discurso pelas palavras averbadas. Linguagem inebriante urdida com uma paixão que nos faz esquecer o banho de kitsch transmitido pelos sucessivos períodos, parágrafos e páginas que a albergam. Poesia em prosa ou prosa poética, para o caso tanto faz. Apercebemo-nos do caráter repetitivo da fábula e da limitação de recursos desenvolvidos, e ficamos à espera de mais, de muito mais, sem prestar demasiada atenção às falhas apontadas, para que o prazer da leitura se volte a concretizar, uma e outra vez, sem interrupções, sem intermissões, sem fim à vista. 

As três partes já dadas à estampa da série confrontam-nos com a história dum conjunto de personagens que atravessam a intriga à procura duma identidade perdida, por entre as sombras duma Barcelona imersa num sono repleto de cinzas e silêncios. Daniel Sempere suspeita estar também em vias de perder o nome e a alma que lhe têm dado sentido à vida. O relato termina num ambiente de incerteza que só o futuro poderá mitigar. A próxima etapa talvez ajude a clarificar a situação, dado que a história do protagonista mal acaba de começar.

30/06/12

John Boyne: e todos se vestiam como o rapaz do pijama às riscas

«And one final thought came into her brother’s head as he watched the hundreds of people going about their business, and that was the fact all of them – the small boys, the big boys, the fathers, and grandfathers, the uncles, the people who lived on their own on everybody's road but didn’t' seem to have any relatives at all – were wearing the same clothes as each other: a pair of grey striped pyjamas with a grey striped cap on their heads.»

John Boyne, The Boy in the Striped Pyjamas (2006)
Vi Dublin invadida de pijamas às riscas em forma de livro quando por lá andei em 2006. Na altura não dei grande atenção ao facto. Mais um bestseller na forja, pensei. Só me dei conta do exato sentido do traje referido no romance há uns dias atrás quando vi por acaso no pequeno ecrã da televisão o filme que o adaptara às telas de cinema. Espantoso. As tais histórias singulares que os livros às vezes nos contam. Assim. Sem mais nem menos. De improviso. Dentro e fora das páginas de papel que as suportam e das capas de cartão que lhe emprestam um primeiro rosto. John Boyne quis prestar homenagem a todos aqueles que nos campos de concentração, trabalho escravo ou extermínio nazi foram obrigados a vestir-se como O rapaz do pijama às riscas (2006), figura central duma ficção feita de factos acontecidos. 

As edições mais recentes da saga de Bruno e Shmuel aproveitaram-se do sucesso da película e do ar de inocência transmitido pelos jovens atores que dão corpo aos heróis da efabulação, para substituírem a imagem anterior a duas cores por uma outra mais tranquila pintada com todas as opções cromáticas do arco-íris. Os dois encontram-se sentados num chão de relva viçosa, pernas cruzadas, virados um para o outro, a partilharem confidências e a projetarem o futuro. Separa-os uma vedação de arame farpado e uma feição peculiar de vestir. Une-os um processo de amizade em construção e uma ausência de preconceitos no horizonte. O modo ingénuo de encarar a vida idealizado pelas crianças é confrontado com o modo calculista materializado pelos adultos de transmudar a vida a seu belo prazer. O leitor coloca-se na fronteira traçada por estas duas cosmovisões e converte-se no juiz dos conflitos que lhe vão sendo postos pela escrita minuciosamente tecida pelo autor. Os contrastes discursivos acumulam-se e o produto resultante acaba por demonstrar que a literatura não tem género definido nem idade limitativa. Tem é autores-leitores à altura. Caso contrário, resume-se a um conjunto de letras dispostas em palavras e frases que não cabem nas categorias ideadas pela arte poética. 

O episódio da gesta europeia recente retratado neste romance só pode ser remetido para o universo do juvenil e varonil, por ser protagonizado por dois rapazes de nove anos de idade, nascidos no mesmo dia, mês e ano, mas em contextos étnicos diametralmente opostos, o ariano da Alemanha nacional-socialista e o judaico da Polónia ocupada pelo Terceiro Reich, um em Berlim e o outro em Cracóvia, um regido pela cruz gamada e o outro pela estrela de David. Só assim se entende a candura manifestada por cada um deles ao pronunciar de maneira infantil «Fúria» pelo alemão Führer e «Acho-Vil» pelo polaco Auschwitz. Tudo se passa como se o autor tivesse pudor de registar a versão original das palavras-chave dos dramas vividos e as registasse pela inócua dos diálogos travados. O ponto de vista particular dos mais novos a questionar as interpretações dos mais velhos. A conhecida técnica usada por Jonathan Swift n’ As viagens de Gulliver, por Lewis Carroll na Alice no país das maravilhas ou por Saint-Exupéry n' O Principezinho. Os livros de adultos a refletirem o mundo infanto-juvenil tratado no seu interior pelas personagens que lhes dão alma e razão de existir. 

O encontro final do real e do imaginário faz-se na esfera discursiva da tragédia, marcado pela gramática teatral do disfarce, do fingimento e da máscara, pelo predomínio do discurso dialógico, pelo número reduzidos de atores e de recintos cénicos convocados pela ação. Os erros dos pais recaem nos ombros dos filhos. À boa maneira clássica da hybris helénica ou bíblica do pecado original judaico-cristão. Édipo é punido pelos crimes de Laio. Os descendentes de Adão e Eva são condenados à morte pela desobediência dos progenitores à vontade de deus. Os heróis findos do passado são trazidos ao convívio dos espetadores do presente pelo curto espaço de tempo da leitura do livro ou do visionamento do filme. A intriga desenvolve-se à frente dos nossos olhos, no palco. A catástrofe concretiza-se fora de olhares indiscretos nos bastidores. O castigo infligido aos filhos dos homens é representado discretamente no barracão dos duches oferecidos aos deserdados do prometido império dos 1000 anos. Implacavelmente. Sem apelo nem agravo.

Por razões que o meu subconsciente saberá explicar melhor do que eu, nunca gostei de me ver dentro dum pijama às riscas, daqueles de ir para a cama quando chega a noite, com a consciência tranquila, pronto para um sono reparador e algum sonho redentor. A associação das barras do tecido às grades da prisão deu-me sempre a sensação desagradável de claustrofobia, de falta de liberdade. É provável que o uniforme imposto compulsivamente aos condenados à solução final e ao holocausto me tivesse alimentado um pouco essa aversão visceral. Felizmente para todos nós que esses tempos de barbárie humana foram há muito erradicados da superfície da terra. O próprio feitor da fábula o afirma nas derradeiras linhas da fábula feita. Queiram os fados benfazejos e o bom senso dos homens que tenha razão. Aconteceram há muito tempo e não voltarão a repetir-se nos dias de hoje nem na época em que vivemos.

20/06/12

Per Olov Enquist: visita de médico ao rei da Dinamarca


«Johann Friedrich Struensee utsågs kungliga läkaren den danske kungen Christian VII den 5 april 1768, fyra år senare avrättades.»
Per Olov Enquist, Livläkarens besök (1999)
Todas as viagens são úteis para a aquisição de novas aprendizagens e experiências. Algumas delas conseguem mesmo mudar de modo radical pontos de vista pessoais até então tidos como definitivos. Uma passagem rápida por Copenhaga permitiu-me entrar em contacto com uma realidade escandinava que os roteiros turísticos geralmente ignoram ou a que imprimem uma ênfase muito reduzida. Convidam-nos a visitar castelos e palácios, a passear pelos parques e jardins que os enquadram, a fotografar os recantos mais aprazíveis que os alojam, mas omitem parte dos dramas que os seus proprietários aí vivenciaram. Acedi a alguns destes eventos pretéritos com a ajuda de Per Olov Enquist e d’ A visita do médico real (1999), através da escrita mágica dum autor sueco e dum romance histórico de enfoque dinamarquês, centrado na deslocação profissional do alemão Johann Friedrich Struensee à corte de Cristiano VII de Oldenborg e de Caroline Mathilde de Hanôver entre 1768 e 1772. Pequeno episódio aparentemente inócuo do Almanach de Gotha, que a Europa setecentista das monarquias absolutas do Ancien Régime comentou copiosamente em vários idiomas e depois remeteu para a órbita confortável dum esquecimento previsível.

Encarado desta forma simplista, o leitmotiv romanesco referido até pareceria roçar os limites da banalidade, se o obscuro visitante real não tivesse vivido um escandaloso caso de amor com a rainha e não tivesse implementado os alicerces da revolução dinamarquesa em nome do rei. Tudo isto em quatro anos que os anais oficiais consagraram com a designação de Era Struensee. O resultado de tão insólita efeméride é conhecido. A princesa da Grã-Bretanha e Irlanda foi obrigada a divorciar-se do rei da Dinamarca e Noruega e foi deportada para o castelo de Celle na Baixa-Saxónia. O até então médico, conselheiro e ministro do gabinete real foi condenado à morte por decapitação seguido de esquartejamento, sentença proferida mais pela implementação do processo de reforma do país do que pelo adultério cometido com a soberana. O tribunal que o julgou cortou o mal pela raiz, separando-lhe do corpo a mão que assinara os 632 decretos iluministas e a cabeça que os havia concebido e posto em prática. Por vezes vem-nos à lembrança o eco perdido doutros sucessos históricos cuja crueldade chocaram de igual modo o velho continente. A execução dos Távora (1759) serve de exemplo perfeito num contexto estritamente nacional. As semelhanças sangrentas são claras, conquanto a ação de Sebastião José de Carvalho e Melo, o ministro plenipotenciário de D. José I, tenha sido feita em nome no despotismo esclarecido do monarca fidelíssimo e não contra a sua concretização entre nós.

A urdidura dos factos é traçada com frases curtas, incisivas, clínicas, com o recurso a uma linguagem crua, sem falsos pudores, num estilo que certas práticas literárias reprovam mas que a natureza da matéria relatada justifica. O romancista fá-lo através da revisitação documental de confissões, relatórios, despachos, dissertações, jornais, escritos, notas, diários, livros e memórias. A oscilação discursiva entre luz e trevas é constante. O jogo dicotómico entre sonho e pesadelo, prazer e dor, realidade e ilusão, paixão e ódio invade o mundo imagético dos atores que dão corpo ao drama, levado à cena no país do lendário Amled, o príncipe louco celebrizado por Shakespeare com o nome trágico de Hamlet, um e outro referidos várias vezes na efabulação, sempre em confronto direto com Cristiano VII, o rei louco que passara toda a vida a representar o papel da corte no teatro da corte. O sentido paradoxal da peça assenta na tentativa absurda de se instaurar o reino da razão num reino entregue a um rei destituído de razão. A corte transforma-se num grande manicómio em que Struensee, o reformador idealista derrotado, é substituído nos labirintos do poder por Guldberg, o conspirador intriguista vencedor. Dois pequenos arbustos insignificantes entre árvores grandes e arrogantes. A aristocracia todo-poderosa podia voltar a respirar sossegada. A moral e os bons costumes tinham sido restaurados. O direito divino de governar os povos restituído às mãos do seu legítimo proprietário, i.e., dos seus leais colaboradores.

O romance mais conhecido do Prémio Nórdico da Academia Sueca começa com uma frase lapidar que sintetiza toda a fábula: «Johann Friedrich Struensee foi nomeado médico real do rei dinamarquês Christian VII no dia 5 de abril de 1768; quatro anos mais tarde foi executado». Felizmente para todos nós que o engenho e arte do escritor não se ficou por aí e nos introduziu nesse escasso período de tempo em que o livre-pensamento deu os primeiros passos decisivos nos palcos europeus e começou a mudar irreversivelmente o destino dos seus cidadãos. Os filósofos da revolução perderam a batalha dinamarquesa no reinado de Cristiano VII mas ganharam a guerra francesa no reinado de Luís XVI. E assim se faz a história, e assim se contam histórias...

27/05/12

José Saramago: claraboia, um retábulo com seis painéis e muitas gestas desenhadas


«Adriana pousou o livro e daí a pouco esquecia-o. Não apreciava muito os livros. Como a irmã, a mãe e a tia, adorava a música, mas os livros achava-os maçadores. Para contar uma história enchiam-se páginas e páginas e, afinal, todas as histórias se podem dizer em poucas palavras.»

José Saramago, Claraboia (2011)
Descobri José Saramago por acaso há cerca de três décadas atrás, numa altura em que não conhecia o autor nem de nome. Apaixonei-me pela capa dum livro seu que tinha uma imagem fabulosa e só me dei conta do disparate cometido quando cheguei a casa. Deixara-me vencer pela aparência dum olhar e impulso dum instante. Reproduzia ela o pormenor bíblico da construção da torre de Babel, pintado nos frescos medievais da abadia francesa de Saint-Savin-sur-Gartempe. Alguns meses depois, resolvi arrumar em definitivo o incidente e lançar-me duma vez por todas à leitura sempre adiada do romance ou deixá-lo tranquilamente sossegado a encher-se de pó. A surpresa não podia ser maior. Li-o de fio-a-pavio, numa única noite e sem interrupções. Na manhã seguinte, fui à procura de todos os textos que já publicara e comecei a devorá-los da primeira à última notação gráfica. O prazer da descoberta foi menos intenso, mas vaticinou-me que o melhor ainda estava para vir nos anos seguintes. Assim foi. A paixão pela escrita desse desenhador de palavras até então desconhecido desabrochou e mantém-se bem viva até hoje. Tudo a partir do Memorial do convento (1982), um relato épico centrado na era dourada do magnânimo e que transformou radicalmente em mim a forma de viver a literatura. Curiosas histórias que os livros nos oferecem, assim de imprevisto, sem pedirem licença a ninguém.

Uma outra capa que me voltou a sensibilizar para um romance de Saramago é mais recente e a linguagem de script que a encorpa obedeceu a uma trajetória distinta. A ansiedade de desvendar os segredos dum inédito há muito extraviado foi mais forte do que a magia provocada por uma gravura que se abria sedutoramente para o âmago da fábula. A representação duma fresta ou óculo aberto para permitir a passagem do ar ou claridade a um edifício de papel revestido de palavras e a pairar sobre o casario da cidade recortada sobre um fundo azul celeste. Imagem feliz para dar visibilidade antecipada a uma Claraboia (2011) especial, traçada por um obscuro Honório, pseudónimo que os editores modernos substituíram pelo ortónimo do seu criador absoluto. Apesar de ter sido finalizada em 1953 e ficado esquecida até às vésperas da publicação, já com caráter póstumo, é deveras surpreendente que encontremos na sua urdidura a magia duma escrita que só seria reconhecida e consagrada a uma distância tão alargada no tempo. A problemática da existência humana tomada em todas as suas dimensões, a equação das relações erigidas entre homens e mulheres nas suas pequenas e grandes cumplicidades, a determinação possível das fronteiras balizadoras do real e do imaginado, do bem e do mal, do amor e do ódio, da verdade e da mentira, da vida e da morte, do tudo e do nada.

Essa abertura estratégica recortada no prédio ficcionado permite-nos espreitar para o seu interior sem ser vistos, observar discretamente o destino entrecruzado da meia dúzia de famílias que o habitam, protagonistas romanescos decalcados dos passeantes anónimos com que nos cruzamos no nosso caminhar pelo dia-a-dia. Vê-los a todos dum modo peculiar, como heróis e heroínas dum vasto retábulo com seis painéis e muitas intrigas por contar. Gente simples com sonhos de liberdade. Regresso inesperado aos anos cinquenta, a um bairro popular de Lisboa, descritos em cima do acontecimento, aqueles em que uma chamada telefónica custava cinco tostões e se podia fazer em casa duma vizinha, em que se ouvia rádio aos serões e se ignorava a existência da televisão, em que os jornais falavam da guerra da Indochina e se fazia tábua rasa das colónias portuguesas que, à época, se mantinham adormecidas, numa tranquilidade secular, sem o menor sobressalto de conflitos futuros. Anos em que as pessoas ainda sentiam prazer em conversar umas com as outras sobre os mais diversos assuntos, ainda achavam importante discutir os enredos das histórias de paixões ardentes escritas nas páginas dum livro ou gravadas nas faixas dum disco, ainda encontravam argumentos plausíveis para construir sistemas filosóficos pessoais de dimensão universal. Retalhos de vida plasmados num romance que por pouco não ficava encerrado numa qualquer gaveta de obras rejeitadas pela república das letras. Uma claraboia transformada numa janela aberta de par em par, para que as poeiras de décadas de esquecimento fiquem impedidas de ofuscar a luminosidade retratada na tela. Ironia inesperada do devir histórico, feita de teias urdidas e cerzidas, de dramas lidos e vividos, de palavras perdidas e achadas…

13/05/12

Roberto Bolaño: os poetas de ferro e a pista de gelo

«La tranquilicé explicándole que el mexicano era un poeta y la recepcionista contestó que su novio, el peruano, también lo era y no se comportaba así. Como un zombi. No quise contradecirla. Menos aún cuando dijo, mirándome las uñas, que la poesía no daba nada. Tenía razón, en él planeta de los eunucos felices y los zombis, la poesía no daba nada.»
Roberto Bolaño, La pista de hielo (1993)
Roberto Bolaño tornou-se nos tempos conturbados em que vivemos num dos escritores de culto com mais adeptos em todos os quadrantes geográficos aonde os seus livros já chegaram. O sucesso deste autor de referência obrigatória e presença imperiosa em todas as bibliotecas públicas e privadas tem sido feita tanto a partir da versão original castelhana com ressaibos chileno-mexicanos, como das traduzidas para um número crescente de línguas. Situação a todos os títulos invulgar, dado aplicar-se a um criador que só teve de morrer para se tornar célebre à escala global, sem para esse efeito ter entrado no clube restrito dos fabricantes encartados de fantasias gratuitas, dos vendedores de sonhos baratos convertidos em best-sellers de leitura superficial e inócua, expressamente feita para consumir e deitar fora. 

Encetei o regresso inevitável à magia do inventor do infrarrealismo literário através d’A pista de gelo (1993), a primeira obra em prosa que deu à estampa com a forma de romance e um dos derradeiros títulos a ser divulgado entre nós. O prazer do reencontro foi imediato. Mais uma vez o fascínio repetiu-se. A vontade firme de novos encontros saiu reforçada. Assim o baú do efabulador continue a abrir-se e a revelar-nos postumamente os textos que razões desconhecidas mantiveram inéditos até à presente data. Assim o fundo dessa arca de tesouros escondidos atinja uma dimensão abissal, para que os nossos convívios com o universo imagético da escrita aconteçam e os diálogos com o seu arquiteto se refaçam ciclicamente. 

Os temas, assuntos e motivos desta obra inaugural serão retomados exaustivamente na produção novelesca editada em datas posteriores. Contudo, a hipotética suspeita de iteração abusiva não se instala no horizonte de receção dos leitores. Tudo se passa à boa maneira barroca da arte da fuga, em que o caráter contrapontista, polifónico e imitativo das melodias em confronto se associam para criar a sensação de unidade e diversidade da própria existência humana, ancorada na perseguição e evasão duma ideia central e plasmada indiferentemente numa pauta de música ou numa página de livro. As harmonias alcançadas são o produto catalisador da própria variação. Por outras palavras, todas as histórias estão dentro doutras histórias, as pretéritas e as vindouras, num contínuo narrativo de fragmentos soltos unidos pela mestria da composição.

Exige o senso comum regulador das boas práticas da resenha literária que a partilha das leituras feitas nunca revele o mistério das leituras projetadas. O desvendar de enigmas é um processo estético que só funciona em toda a sua plenitude mágica se for efetuado em primeiríssima mão. O argumento possível desta pista de gelo encontra-se registado na contracapa do exemplar consultado. Refere tratar-se de três versões distintas dum mesmo crime perpetrado numa localidade anónima da costa espanhola. Avança com outros pormenores que um pudor pessoal me impede de avançar. Quem quiser saber mais dos enredos revelados pela narrativa que se fique pela capa ou viaje pelo interior do livro. Hipótese que defendo vivamente. A experiência da descoberta vale o esforço. 

Os fragmentos de vida vivida pelos poetas de ferro que dão corpo à fábula espelham, em grande medida, o percurso de vida vivida pelo poeta-narrador que os retratou, em episódios feitos e contrafeitos ao sabor da pena que os traçou. O autor e as personagens confundem-se entre si, visto fazerem parte duma mesma verdade, a real e a imaginada. Andarilhos, marginais, exilados, boémios, famintos. Pícaros desajustados nesta era de pós-modernidade consumada no rescaldo de guerras frias travadas dos dois lados do muro da vergonha também apelidado cortina de ferro. Protagonismos indesejados de acontecimentos recentes convocados à colação do leitor para memória futura. Razão tem Roberto Bolaño para defender, através do testemunho oportuno duma personagem, que se o perdido está perdido, o melhor mesmo é olhar em frente. A frase com que A pista de gelo termina tem um outro alinhamento de palavras. A ideia que a enforma permanece todavia inalterada, com toda a força premonitória de aviso ou prevenção que o nosso engenho e arte lhe consiga outorgar…

27/04/12

Lídia Jorge: a noite das mulheres cantoras ou o reino do império minuto


«Mas nós rodopiávamos indiferentes aos brilhos projectados sobre as nossas roupas, porque sabíamos que estávamos a celebrar um encontro no interior do império minuto, e havia vinte e um anos que na realidade não nos encontrávamos.»
Lídia Jorge, A noite das mulheres cantoras (2011)
A ânsia desmedida pelo sucesso instantâneo é uma realidade incontornável nos nossos dias, fantasiada por uma multidão sempre crescente de potenciais candidatos aos cumes olímpicos da fama e campos elísios da imortalidade. Deitarem-se obscuros e levantarem-se famosos nos quatro cantos da terra. Eis a grande apetência acalentada por todos. Custe o que custar e doa a quem doer. Entre um momento e o outro, bastaria uma simples aparição fulgurante num qualquer concurso mediático, norma geral patrocinado pela variante televisiva, para atingir o resultado merecido, o triunfo repentino e irrefutável. Nestes desígnios de idolatria galopante, o sonho nunca prevê o pesadelo. A glória da vitória nunca admite a vanglória da derrota. Cada pretendente crê poder alcançar por mérito próprio o rótulo de top model dos trapos, master chef dos pratos ou super idol dos palcos. Tudo em inglês, para que a ilusão do troféu conquistado adquira um relevo de magnitude planetária e deixe todos de boca aberta e a salivar de inveja.

Lídia Jorge centra-se nesse fenómeno mediático atual do reino do império minuto n'A noite das mulheres cantoras (2011), onde nos relata a saga de cinco candidatas a estrelas cintilantes das canções pop-swing erigidas em português e com passaporte garantido para o mundo. Fá-lo através de duas versões de dimensão diferente, a oficial e a real, separadas por um intervalo de vinte e um anos de lembranças adormecidas e de esquecimentos avivados. À mais recente e breve, dá o nome de «O Conto de Solange» e situa-a numa noite perfeita do verão de 2009. À mais antiga e longa, dá um ar de exame de consciência dos acontecimentos vividos em 87-88 e reparte-a por vinte capítulos numerados e um epílogo sintetizador de todos os fragmentos convocados pela intriga. Amor e ódio, riso e choro, vida e morte, são ingredientes omnipresentes na ação que dá corpo à fábula e alma ao texto.

Lisboa é o palco central do drama e África o lateral das tragédias. Os ecos de histórias antigos são frequentes. Prodígios duma escrita sem limites a que a autora há muito nos habituou. As costas índicas dos murmúrios e atlânticas das saudades, as cidades silvestres das amizades forjadas e das inimizades forçadas, as notícias de ventos assobiando nas gruas do devir coletivo dum povo, são atualizados pela memória da voz feminina que conta e reconta a história dum bando de cinco mulheres cantoras, descendentes dum velho império perdido à procura de novos horizontes globais a subjugar que possam combater sem tréguas as sombras multisseculares dos fantasmas de antanho. Os aromas do chá moçambicano do Monte Namúli no Gurué e do café angolano do Paralelo Dez no Cuanza-Sul chegam-nos através das rotas de Joanesburgo e do Lobito com umas pitadas das rotas americanas alternativas dos EUA e Canadá. Há ainda um pão com diamantes expressamente preparado para as merendas futuras num cais de muitas chegadas e partidas, de muitas debandadas e retornos, de escassas permanências e demasiadas ausências. A janela da imaginação abre-se de par em par em cada página dum romance composto com palavras musicais a soar a jazz com cadência perfumada de blues, requebros dissonantes de ópera italiana rejeitada e um tudo ou nada de fado lusitano mal digerido a deixar um travo amargo na língua.

O protagonismo imediato recai nas cinco jovens que dão título à obra e mediato na corte de fabricantes de êxito certo e seguro, gravado em vinil e consagrado em cena. A fazer-lhes companhia silenciosa, encontramo-nos nós, leitores-espetadores privilegiados dum reality show especial, urdido com utopias quotidianas tecidas para deleite e proveito de todos aqueles que queiram assistir à representação sempre renovada da comédia humana. O teatro da vida é oferecido a quem o quiser observar no interior dum livro tradicional feito de papel e letras a cheirar a tinta e pautas musicais invisíveis à espera duma partitura inspirada. Então, poderemos idear a melodia mais ajustada para trautear com as mulheres cantoras as lyrics avisadas da Canção Afortunada, aquela que nos fala de alguém que tem tudo e não quer nada, ironia trágica quando aplicada a um grupo que nada tem e tudo quer. Amor, morada, valor, fama e tudo o mais que vier.

08/04/12

Antonio Tabucchi, um requiem italiano entoado em português


«…hoje é um dia muito estranho para mim, estou a sonhar mas parece-me ser realidade e tenho de encontrar umas pessoas que só existem na minha lembrança.»
Antonio Tabucchi, Requiem – uma alucinação (1991)
Comprei o Requiem – uma alucinação (1991) de Antonio Tabucchi há 21 anos, com o firme propósito de o ler mal chegasse a casa. A circunstância de ter sido escrito diretamente em português por um italiano abrira-me ato contínuo o apetite de entrar no seu interior e de desvendar os seus mistérios mais secretos, aqueles que todas as obras de arte carregam consigo, à espera que os visitantes mais audazes tenham tanta habilidade para os deslindar quanta os seus arquitetos tiveram para os idear. A marcha imparável do tempo e os caprichos imponderáveis do dia-a-dia impediram-me de cumprir esse desejo até há uns dias atrás. A morte do autor anunciada nos mass media recordou-me que já estava em dívida para com ele há uma eternidade. O romance, composto em forma de missa de defuntos e ilustrado com um fragmento d’As tentações de Santo Antão de Hyeronimus Bosch, saiu enfim da prateleira dos livros esquecidos e das leituras adiadas e começou a desfiar o seu rosário de preces encomendadas às almas dos entes convocados pela fábula, em nove etapas, tantas quantas as partes eclesiásticas consagradas pelo género litúrgico que o enforma e inspira.

A obra até seria difícil de integrar satisfatoriamente numa categoria literária precisa e regularizada pelos cânones tradicionais, se não se desse o caso providencial de a instância narrativa, prevendo as dificuldades sentidas pelos leitores mais inexperientes nestas lides das letras, a ter colocado na órbita imediata do insólito, na fronteira dicotómica do real/imaginário, espaço psíquico em que o desvario caótico da alucinação e a fantasia episódica do sonho tomam conta do discurso e o transformam numa sonata de palavras pensadas com cadência musical e entoadas com precisão poética. A plausibilidade factual do relato fica garantida, dado que dentro e fora das páginas que o abrigam nada de sobrenatural aconteceu, apesar da sensação de estranheza com que ficamos ao percorrer a romaria do protagonista pelos trilhos das lembranças perdidas. Tudo se explica através da capacidade inata que todos nós temos de forjar mundos alternativos do faz-de-conta. Assim a saibamos alimentar e acarinhar.

A ação decorre num escaldante domingo de verão, o último do mês de julho dum qualquer ano do final da década de 80, quando Mário Soares presidia de maneira peculiar aos destinos da república. O Eu narrador e alter ego do autor achava-se numa quinta de Azeitão a ler à sombra duma amoreira O livro do desassossego de Bernardo Soares, quando é atacado pelos fantasmas da memória e se vê levado, por artes de berliques e berloques, para o centro de Lisboa. A tranquilidade bucólica é substituída pelo bulício urbano e a aventura dos diálogos da vida e da morte entra em palco, para as necessárias permutas de tempo e inadiáveis ajustes de contas com a história. Segue-se uma acabada galeria de tipos disposta à boa maneira vicentina da trilogia das barcas. A ribalta dos encontros fortuitos e dos planeados desloca-se, ao sabor da maré, para os cenários do cemitério dos Prazeres, de vários restaurantes citadinos, uma pensão de bairro, o museu das Janelas Verdes e um comboio da linha de Cascais, espaçados pelas calçadas, ruas, praças, largos e avenidas que os estreitam entre si.

A última etapa da peregrinação onírica dá-se em Alcântara com Fernando Pessoa. Os ecos d’O ano da Morte de Ricardo Reis (1984) de José Saramago são audíveis desde o início deste requiem novelesco. Só muda o relevo dado aos heterónimos evocados e a frequência dos encontros relatados. A conversa toma a forma dum simpósio e é travada em português e inglês, os dois idiomas que acompanharam o poeta ao longo da sua existência. Os assuntos abordados são medianamente banais e centram-se nos desassossegos verdadeiros e fingidos vividos pelos dois no ato da criação literária. Intersecionismos, futurismos e saudosismos são aflorados mas esbarram com as vanguardas pós-modernas desconhecidas pelo inventor da primeira modernidade. O jantar chega ao fim e com ele a matéria que alimentara até então o relato. Cada um dos convivas parte para o seu mundo sem direito a despedidas. O sonho-alucinação chegara ao fim. Lisboa fica para trás e Azeitão volta a perfilar-se no horizonte do sonhador-alucinado. Entre um espaço e outro, fica a homenagem de Tabucchi à cultura portuguesa e à língua que lhe dá voz e sentido. Prestemos-lhe nós também o preito que merece e mergulhemos nas águas profundas dos seus escritos, na dádiva dos silêncios partilhados e dos afetos confessados.

25/03/12

Umberto Eco, o cemitério de Praga e os labirintos da história



«L'odio è la vera passione primordiale. È l'amore che è una situazione anomala. Per questo Cristo è stato ucciso: parlava contra natura. Non si ama qualcuno per tutta la vita, da questa speranza impossibile nascono adulterio, matricidio, tradimento dell'amico... Invece si pùo odiare qualcuno per tutta la vita. Purché sia sempre là a rinfocolare il nostro odio. L'odio riscalda il cuore.»

Umberto Eco,  Il Cimitero di Praga (2010)

Recordo com alguma precisão os tempos que precederam o lançamento do romance inaugural de Umberto Eco entre nós. As notícias foram-me chegando a conta-gotas e via académica através duma amiga minha e discípula do conhecido semiólogo italiano, o tal que ousara aventurar-se nos difíceis sendeiros da ficção histórica de debuxo policial. O mais fascinante d’O nome da rosa (1980) residia no facto singular de se trazer à luz do dia a descoberta do segundo livro perdido da Poética de Aristóteles, aquele que falava da comédia e do riso, modalidade dramática e atitude humana pouco apreciadas pela matriz judaico-cristã ortodoxa então imperante, mais vocacionada para os efeitos penitenciais e catárticos da tragédia e do choro. Seguiram-se-lhe outros títulos sempre sugestivos, de êxito editorial abonado e leitura estimulante assegurada. As temáticas abordadas estarão na origem deste fenómeno inusitado de best-sellers produzidos em cadeia e a nível global. A polémica filosófica do nominalismo escolástico e religiosa da cabala templária, os mistérios herméticos do ponto fixo da terra e do cosmos, as lendas-mitos medievais do Santo Graal arturiano e do Reino do Prestes João das Índias…

O cemitério de Praga (2010) é a sexta obra da série e centra-se, como as anteriores, na recriação dum momento preciso de rutura do devir histórico da Europa em geral e da Itália em particular, concretizada no processo de unificação do país, promovido à revelia do Congresso de Viena (1814-1815) e sob os auspícios da Casa de Saboia. O espaço cénico mazzimiano e garibaldista, republicano e maçónico, carbonário e revolucionário está todo documentado nas páginas da efabulação, labirinto de fragmentos narrativos centrados no protagonista e única personagem inventada do enredo, ilustrados com imagens da época para dar uma maior visibilidade ao relato e instrução do leitor. A informação é-nos dada pelo próprio autor e nada nos leva a duvidar da sua veracidade, muito embora esteja ancorada num texto final de «inúteis explicações eruditas» e desenhada num contexto de incontornável traçado irónico. A forma literária selecionada para dispor os factos passa pelos excertos caóticos dum diário pessoal composto pelo herói/anti-herói convocado, que, movido por uma convencional dupla personalidade, o redige em nome ora do falsário Simone Simonini ora do abade Dalla Picolla. O verso e o reverso, em suma, duma mesma entidade romanesca, marcada ao longo de todo o discurso por uma alegada «euforia amnésica» e não menor «rememoração disfórica».

Gizada à boa feição romântica do folhetim jornalístico de recorte neogótico e assente num manancial de pseudodocumentos autênticos ou habilmente falsificados, parafraseados ou comentados à exaustão, a relação ficcionada do Risorgimento italiano é também um livro que fala doutros livros, populares todos eles no seu tempo mas mesmo assim caídos no mais profundo e talvez merecido esquecimento. Excetua-se o caso paradigmático d’Os protocolos dos sábios do Sião (1905), publicado em data posterior à cronologia interna do romance, mas cuja génese doutrinária se questiona ao longo de toda a sua conceção diarística. O antissemitismo primário das instâncias narrativas, fruto de preconceitos multisseculares, agudizados por nacionalismos oitocentistas ancorados nos meandros dicotómicos do amor e morte, que o politicamente correto não conseguiu mitigar nos nossos dias de forma adequada, é constante e militante. O desconforto toma conta do leitor, levando-o a confundir os sujei-tos internos da enunciação com o próprio autor. Feito prodigioso de Umberto Eco que, só por si, seria suficiente para aconselhar uma incursão atenta à obra que equaciona a teoria da cons-piração judaica tecida no cemitério da capital checa e que levaria à conquista hebraica do mundo.

À distância de trinta anos, tantos quantos os que separam a Rosa do Cemitério, com passagens cadenciadas pelo Pêndulo e Ilha, Baudolino e Loana, o universo imagético do romancista-ensaísta mantém-se intacto. A sensação de maravilhamento não será exatamente o mesmo, mas o encanto das palavras ditas com sentido continua inalterado sem sofrer a menor beliscadura. Razão mais do que suficiente para esperar atentamente a vinda dum sétimo grupo criativo de aventuras, enigmas e fantasias, para que um ciclo simbólico da totalidade humana se feche e abra caminho a outros mais.

23/01/12

Mario Vargas Llosa: o sonho do celta, fantasias e quimeras

«Escuchó unos movimientos, rezos de los sacerdotes y, por fin, otra vez un susurro de Mr. Ellis pidiéndole que bajara la cabeza y se inclinara algo, please, sir. Lo hizo, y, entonces, sintió que le había puesto la soga alrededor del cuello. Todavía alcanzó a oír por última vez un susurro de Mr. Ellis: “Si comntiene la respiración, será más rápido, sir”. Le obedeció.»

Mario Vargas Llosa, El sueño del celta (2010)
O problema das biografias literárias de personalidades histó-ricas assenta no facto de já se conhecer, em linhas gerais, o alfa e o ómega dos percursos que traçaram em vida. Tudo deriva da notoriedade granjeada ao longo desse intervalo de tempo e que a memória dos homens tenha querido ou sabido preservar. O cronista só acrescenta pormenores verídicos à fábula e outorga um aparato estético ao discurso. Por vezes, enfatiza a faceta brilhante do herói, outras a sombria do anti-herói. Opções legítimas tomadas pelo autor de serviço em demanda do leitor ideal ou tido como tal.

Mario Vargas Llosa deixou-se seduzir pela figura controversa de Sir Roger Casement (1864-1916), diplomata britânico e nacionalista irlandês, revolucionário gaélico e humanista universal, patriota para uns e traidor para outros. Percorreu de ponta a ponta os relatórios públicos e diários secretos que nos deixou, centrou-se no combate sem tréguas sustido em três continentes em prol da liberdade dos povos colonizados e compôs uma interpretação pessoal dos acontecimentos a que deu a forma de romance. Chamou-lhe O sonho do celta (2010), apropriando-se do título homónimo dado pelo retratado a um longo e esquecido poema épico, escrito em 1906, sobre o passado mítico da Irlanda.

A ação inicia-se no cárcere londrino de Pentonville Prison, numa manhã chuvosa de abril de 1916, onde o condenado se manterá até à execução da pena capital por enforcamento, ocorrida cerca de três meses mais tarde. Os dias e as noites são ocupados num ajuste de contas constante enredado entre as sombras do passado e as luzes do presente, erigido em intermináveis monólogos interiores tecidos na mais profunda solidão e em escassos diálogos milimetricamente cronometrados com o carcereiro e uma ou outra rara visita que a severa e justiça de Jorge V lhe foi magnanimamente concedendo.

A organização novelesca faz-se também através da alternância deste bloco narrativo recente com um outro de eventos pretéritos, aquele que nos conduz à infância, juventude e maturidade do protagonista, repartido por três espaços cénicos maiores, onde o seu destino trágico se teceu e firmou: Congo, Amazónia e Irlanda. Em todos eles, denunciou os abusos das grandes potências contra os países subjugados, escudadas sempre no argumento de o fazerem em nome da civilização. Esclavagismo, tortura, exploração e genocídio são alguns dos meios utilizados para atingir os fins almejados. Na etapa africana, relatou as iniquidades cometidas por Leopoldo II da Bélgica no Estado Livre do Congo; na americana, as atrocidades praticadas pela Peruvian Rubber Company sobre os nativos peruanos; na europeia, a violação do direito à independência irlandesa por parte da Grã-Bretanha.

As batalhas travadas no hemisfério sul valeram-lhe o título de cavaleiro e as mais subidas distinções, as encetadas no hemisfério norte a destituição de todas as honrarias e a condenação à morte. A mão imperial que é pródiga a outorgar não vacila um único instante quando toca a despojar. Recorre a todos os expedientes disponíveis para levar a bom termo os altos interesses do estado. Os crimes humanitários revelados nas páginas oficiais do Blue Book são apagados e os desvios sexuais relatados nas páginas íntimas dos Black Diaries são divulgados.

Os perseguidores de êxitos fáceis na república das letras esfregariam as mãos de satisfação e explorariam até às raias do razoável um filão comercial tão auspicioso, sobretudo quando o erotismo divulgado roça a suspeita de pedofilia. Vargas Llosa não cometeu o duplo erro de branquear o perfil negro posto a nu nos escritos privados ou de o empolar desmesuradamente na textura narrativa. Refere-o com naturalidade e dá-lhe o peso relativo merecido. A seu ver, todas as pessoas são feitas de contradições. Casement não fugiria muito a esse destino de anjo e demónio, de herói e mártir. Depois nem precisava de ter vivido todas as obscenidades pestilentas que escreveu com o próprio punho. Bastava imaginar que as tinha vivido e passá-los para um papel que só ele leria. O ficcionista atesta, assim, que não existe perfeição ao cimo da terra e que, de quando em quando, temos de ser nós a fazer de juízes supremos para aferir com lisura e rigor o bem e o mal e decidir com isenção e eficácia os pequenos/grandes deslizes que nos definem como seres humanos plenos.

09/01/12

Catherine Clément, as histórias com história da Senhora

«Béatriz était leur Dame. Elle était devenue leur Señora. […] “Ha-Gueveret”, criaient nos frères en hébreu. La Dame. C’est à Salonique qu’on l’appela ainsi pour la première fois.»
Catherine Clément, La Señora (1992)
A escrita foi inventada pelos sumérios há cerca de 5300 anos. A literatura deve ter surgido pouco mais ou menos por essa altura. Desde então até hoje, o homem terá criado qualquer coisa como cem milhões de milhões de originais que a voragem do tempo lá foi fazendo chegar até nós. Cifra prodigiosa que nem o leitor mais aplicado logrará atingir nas suas viagens contínuas pelos livros que contam histórias fingidas ou verdadeiras. Estima-se que nenhum deles consiga ultrapassar uma escassa parcela de 0,01% desse número prodigioso. Desconheço o modo como os entendidos na matéria chegaram a esses resultados de cálculo probabilístico. Fica-se todavia com a ideia geral da grandeza da criatividade humana e da pequeneza que todos nós temos de o entender na sua universalidade.

Há obras que percorremos uma única vez ao longo dos nossos trajetos empenhados pelas letras feitas de palavras portadoras de sentido. A qualidade relativa de cada uma delas é irrelevante para explicar essa singularidade. O desejo de achar outras associações de sons geradoras de prazer estético limita-nos os passos e obriga-nos a saltar de página em página até descobrir o tal poema-ficção da nossa vida. Tarefa inglória, porque todos os dias surgem títulos novos que nem teremos ocasião de conhecer pelo nome. De quando em quando, deixamo-nos de ilusões e lá nos lembramos dum texto que em tempos nos encheu as medidas e temos vontade de visitar de novo. A Senhora (1992), de Catherine Clément, cabe nesta categoria de livros repescados num passado recente, sem direito, ainda, a serem postos na prateleira dos clássicos imortalizados por gerações sucessivas de ledores. Nunca o saberemos.

O mais conhecido relato da autora francesa está centrado na mais ilustre humanista portuguesa que a centúria de quinhentos produziu. Beatriz de Luna se chamou na pia batismal (1510) e Mendes após o casamento católico (1528). Dona Grácia (Hannah) Nassi se passou a nomear por vontade própria após a fuga à Inquisição de Lisboa (1536) e posterior substituição da qualidade de conversa forçada pela de judia convicta em Ferrara (1550). Ganhou o epíteto de A Senhora em Salónica (1553/4), que manteve pela vida fora até ao ano da morte ocorrida na Terra Santa (1569), onde era tida como uma digna rainha da Palestina. A história desta mulher invulgar é também a história dum mundo em mudança. Aquele que trocou as alegadas trevas medievais pelas proclamadas luzes renascentistas. As que levaram a civilização ocidental aos quatros cantos da terra e deram origem à globalização. Época de grandes transformações culturais nas artes, filosofia e ciências, de grandes convulsões sociais na economia, política e religião. Aquela que opôs papistas e protestantes, expulsou marranos e mouriscos, promoveu a limpeza de sangue, acendeu fogueiras e espalhou o terror e a guerra um pouco por toda a parte. No velho continente, a tolerância e convívio dos três monoteísmos abrâmicos foi sentido de modo diferente nos diversos países que o compunham, com particular complacência no império otomano, local de refúgio final da comunidade sefardita ibérica tutelada pela viúva do banqueiro Francisco Mendes / Semah Benveniste, a dominadora ou Ha-Gueveret, como também era apelidada.

A crónica das errâncias da protetora do povo hebreu na diáspora, mecenas de artistas e intelectuais no exílio, patrocinadora da Bíblia de Ferrara e das Consolações das tribulações de Israel de Samuel Usque, íntima do médico João Rodrigues de Castel-Branco, mais conhecido por Amato Lusitano, partidária do messias David Rubeni e do rabi Isaac Louria, é-nos transmitida através do ponto de vista do sobrinho e genro João Micas / Dom Josef Nassi, feito cavaleiro pelo imperador Carlos V e Duque de Naxos pelo sultão Selim II. É a esta figura incontornável da primeira modernidade europeia, amigo íntimo de Maximiano II de Áustria e inimigo figadal de Filipe II de Espanha, que Catherine Clément confia o fio condutor de todas as histórias com história de Dona Grácia Nassi, a Senhora, escrita em homenagem de todas as Beatriz da dispersão de Israel. Tributo literário que a judia de Lisboa merecia, graça que todos nós ficamos a dever à judia de França. Assim o afirma no derradeiro parágrafo do romance, assim se identifica com a protagonista da efabulação, assim se evoca o exemplo duma vida que a ortodoxia católica tentou apagar e que a ficção romanesca recuperou e trouxe ao nosso convívio. Que a leitura se faça refaça então e que aproveite.

11/06/11

Roberto Bolaño, sombras, desertos & enigmas dos detetives selvagens


«He sido cordialmente invitado a formar parte del realismo visceral. Por supuesto, he aceptado. No hubo ceremonia de iniciación. Mejor así.»
Roberto Bolaño, Los detectives salvajes (1998)
Os grandes marcos da criação literária assentam invariavelmente em motivos triviais traçados na mais perfeita simplicidade argumentativa. A cólera de Aquiles, a loucura do don Quijote, a magia do doutor Fausto, o idealismo do rei Artur, a lascívia do don Juan a inspirarem gerações de leitores ávidos de estímulos estéticos feitos de palavras ditas, desditas e reditas. Gilgamech persegue a imortalidade, Édipo conhece-se a si mesmo, Ulisses regressa a casa e vinga-se dos pretendentes de Penélope, Lazarilho tenta saciar a fome e singrar na vida, Romeu e Julieta perpetuam o amor que o destino lhes ajustou através da morte. Os exemplos podiam multiplicar-se até esgotarem os leitmotiv mais imitados pelas belas-letras universais. Umberto Eco exuma o segundo livro da Poética de Aristóteles numa biblioteca conventual com nome de rosa e entrega-o às chamas purificadoras dum incêndio providencial. José Saramago refaz a história do cerco de Lisboa com a mera troca de um sim por um não e problematiza o papel desempenhado pelos cruzados na conquista da cidade. Roberto Bolaño preenche as 600 páginas d' Os detectives selvagens (1998) com o rasto de uma poetisa mexicana que publicou um único poema visual em toda a sua existência, feito com uma palavra, duas sílabas e três desenhos. Genial, apetece dizer.

Frequento o novelista chileno há relativamente pouco tempo. O boom editorial do 2666 foi o culpado. Por vezes, o ruído causado pelos best-sellers globais acaba por ser proveitoso. Não resistimos ao apelo publicitário e embarcamos na aventura peregrina da descoberta da obra-prima anunciada. Depois, damo-nos conta que a qualidade também pode conviver com a quantidade e passamos à exploração sistemática dos restantes títulos dos autores bafejados pelo sucesso, para que o prazer experimentado uma vez se volte a repetir ad æternum. Lidos os livros, a sensação que nos invade é a de que quem lê um lê todos. Curiosamente, fica-se com a vontade de ter um outro mais ali à mão, para recomeçar tudo de novo, à cata de um final decisivo para todas as histórias inacabadas que povoam cada um dos romances já publicados ou em vias de o serem. Pura ilusão. O segredo da escrita do arquiteto do infrarrealismo reside sobretudo no caráter lacunar dos relatos, na incapacidade de lhes dar um desfecho tranquilizador, porque cada um deles está ancorado na realidade quotidiana que nos envolve, modelo matricial de todos os heróis/anti-heróis imaginados pela ficção, até que a morte nos liberte e dê a possibilidade de vislumbrar a perfeição.

Juan García Madero ingressa no universo imagético do realismo visceral e regista nas páginas de um diário pessoal as impressões dessa experiência peculiar. Tem 17 anos e a vida toda pela frente. Fá-lo enquanto mexicano perdido na imensidade da capital do México, entre 2 de novembro e 31 de dezembro de 1975, e nos desertos de Sonora, entre 1 de janeiro e 15 de fevereiro de 1976. A balizar as efemérides documentadas nos dois períodos de espaço-tempo referidos, o leitor depara-se com 26 blocos de fragmentos narrativos, repartidos por 96 testemunhos individuais dispersos, proferidos nos quatro cantos do mundo, entre 1976 e 1996, por 53 personagens diferentes, a pedido de um número indeterminado de pesquisadores ou detetives selvagens. Nesses vinte anos de diligências ininterruptas, encontramos Arturo Belano e Ulisses Lima a rastrearem as pisadas da mítica Cesárea Tinajera e a serem também eles investigados, alternadamente, não se sabe muito bem por quem, por quê ou para quê. Sombras, desertos e enigmas selecionados a adensarem o conjunto de mistérios insondáveis, labirínticos, sinuosos que os microrrelatos coligidos nunca chegam a esclarecer cabalmente e que os leitores avisados deixaram de questionar ou se habituaram a ver como episódios soltos, isolados, singulares, expostos ao sabor da pena ou dos caprichos da fortuna.

Em síntese, trata-se de um extenso metadiscurso sobre a literatura latino-americana atual, uma sátira cerrada à república das letras e à sua relação utópica com a política, um olhar crítico à demanda assídua das portas do paraíso, aquelas que se abrem ao reconhecimento público almejado por todos os artistas e dão acesso aos passeios de uma fama desejada e raras vezes alcançada. Bolaño aproveita a boleia e mergulha a fundo na fábula. Põe a máscara de uma ou outra personagem e converte-se no detetive selvagem por excelência dos seus próprios percursos pelos domínios da escrita: aventureiro, andarilho, exilado, boémio, libertino, novelista e poeta. Ingredientes essenciais para dar sabor a uma vida breve e auspiciar sucesso a uma obra celebrada, paradigma de eternidade a muito poucos concedida, apanágio de seres privilegiados habituados a jogar às cartas com os deuses e a ganharem.

25/04/11

Álvaro Guerra, Trilogia dos Cafés: terceiro folhetim – 25 de Abril


«... o café foi baptizado pela terceira vez e a velha tabuleta substituída por outra de fundo verde, cravos vermelhos em grinalda a envolver as letras amarelas que formavam o novo nome – Café 25 de Abril...»
Álvaro Guerra, Café 25 de Abril (1987)
Muitas têm sido as tentativas de definir com a eficácia desejada o velho continente, berço e túmulo de sonhos e quimeras, palco privilegiado de quezílias continuadas entre gregos e troianos, de brigas absurdas de alecrim e manjerona pela conquista de impérios e domínio hegemónico do mundo. Diligências ensaístas bem-intencionadas todas elas, mas quase sempre votadas ao malogro pela complexidade dos caminhos trilhados. George Steiner tenta ultrapassar essa dificuldade aparentemente insolúvel com o pragmatismo modelar a que nos habituou. Assenta os pés no chão, arregaça as mangas e convoca a substância das coisas ancoradas na realidade das cafetarias e cafés, das paisagens humanizadas e dos viajantes pedestres, dos nomes de ruas e de praças, da dupla herança de Atenas e Jerusalém, da consciência escatológica do fim ou finalidade da civilização ocidental. Reúne todos esses parâmetros em cinco axiomas e traça com uma precisão milimétrica A ideia de Europa (2004) em forma de reflexão pessoal, que nos oferece generosamente para que a possamos questionar, aceitar ou rebater.

Álvaro Guerra antecipa-se-lhe duas décadas e idealiza um Folhetim do mundo vivido em Vila Velha, burgo fictício com ruas e praças alusivas a heróis reais/imaginados, desenha-as numa quadrícula urbana convincente, povoa-a de habitantes anónimos ou de figuras públicas com direito a nomes e apelidos. Estabelece os eixos essenciais de uma vida comunitária plausível, onde não pode faltar o ambiente peculiar do café de província para dar o tom de verosimilhança ao painel. Reparte o fresco feito de palavras por três atos seguidos, tal como nos grandes dramas encenados pela humanidade, por vezes com o sabor satírico da comédia, outras com o afinco purificador da tragédia. Em cada uma dessas fases de representação teatral, o local das tertúlias mantém-se fixo no coração da terra, muito embora o bom senso dos proprietários galegos o vão (re)batizando ao sabor da maré e dos ditames históricos do momento. O autor da ficção gostou da ideia e coligiu o Café República (1982), o Café Central (1984) e o Café 25 de Abril (1987). O destino mítico do país está todo concentrado nessas tramas fingidas que compõem essa gesta de gestas vividas nas lezírias do rio Grande, a dois passos de Lisboa, no percurso que vai da revolução que destronou um rei à revolução que derrubou uma ditadura, no limite do romantismo ideológico de uns e do realismo político dos restantes.

O terceiro retábulo da trilogia fala-nos dos comunas que o pintaram e dos reaças que o esborrataram. O texto não se refere aos partidários dos dois campos opostos nestes precisos termos. A lembrança que guardo da época garante-me que eram então as mais rotineiras, a par de muitas outras que o uso/abuso que delas se fez se encarregou de afastar paulatinamente do nosso vocabulário quotidiano. Retenho, todavia, um conjunto de quatro letras que nos habituámos a ler, sem saber muitas vezes o seu real sentido. PREC, uma sigla maldita/nostálgica que continua a assustar de morte uns e a alimentar de saudosismo outros. Todos aqueles que assistiram ao período revolucionário em curso mais de perto, porque, para os restantes, talvez signifique muito pouco ou nada. Apagados os ardores revolucionários de 74-75, de verões quentes e maiorias silenciosas, saneamentos políticos e reforma agrária, passada tanta água debaixo das pontes, ultrapassados os discursos inflamados dos pás, gajos e portantos, extintos os ecos dos slogans populares, dessa agitação inusitada num país de brandos costumes ou tido como tal, resta-nos a imagem dos cravos coloridos e das esperanças que semeámos em seu redor e que teimamos em manter viçosos, ano após ano, como se fosse o primeiro e o último das nossas vidas.

Lidos os livros à distância de duas décadas, a crónica desses anos revolucionários ganha um sentido que as testemunhas oculares estavam impedidas de percecionar. O caráter novelesco do folhetim/diário apaga-se e a História revela-se-nos através do testemunho do autor e dos relatos das entidades internas do romance convocadas expressamente para o espaço cénico em que a peça se declama. O tempo alarga-se e chega até nós matizado pelos caprichos seletivos da memória. A individual e a coletiva. Para George Steiner, a Europa é feita de cafés, como o preferido de Pessoa em Lisboa ou o de Kierkegaard em Copenhaga. Para Álvaro Guerra, Portugal pode ser contado à mesa de um café, no centro de uma pacata vila de província, de um pequeno país à beira-mar plantado, de onde as ruínas de um mundo em estilhaços podem ser placidamente criticadas, enquanto se bebe uma bica bem tirada e se saboreia um pastel de nata com a canela.

13/03/11

Catherine Clément, dez mil guitarras & um bada


«Les dix mille Portugais avaient perdu leur roi. Mais étaient-ce vraiment lui ? Qui pouvait l’attester ? Des officiers captifs reconnaissaient un corps défiguré, dépouillé de ses insignes royaux ? Allons ! Ce n’était pas vrai. Il avait survécu, il s’était échappé, il allait revenir, il ne pouvait pas mourir. Le roi du Portugal, Sébastien le Désiré, désespoir de son peuple. Quand le soleil se leva sur le champ de bataille, dix mille guitares restèrent sur le sable, abandonnées à Alkacer-Kébir.»
Catherine Clément, Dix mille guitares (2010)
O sebastianismo continua a mover céus e terra por onde passa e toca. Decorridos mais de quatrocentos anos sobre o desaparecimento do desejado em Alcácer Quibir, há ainda quem acredite piamente no regresso do encoberto duma ilha encantada, numa manhã de nevoeiro, montado num cavalo branco, espada em riste, pronto a salvar o reino perdido e a conquistar um quinto império global. O padre António Vieira terá sido o primeiro visionário a dar corpo ao mito messiânico do último cruzado europeu a terras da moirama, Fernando Pessoa um dos derradeiros a conceder-lhe um sentido profético e a aplicá-lo ao devir histórico do país. O fascínio engendrado pelo destino trágico do rei das mil quimeras também tem agregado uma legião de ardentes seguidores dentro e fora dos palcos teatrais onde os diversos atos do drama se representaram.

Catherine Clément deixou-se cativar pelo enredo da peça e deu-lhe uma interpretação muito especial nas páginas das Dez mil guitarras (2010), as tais que os desditosos soldados portugueses terão abandonado no campo da batalha que viu morrer três reis, produzir lendas em duas línguas e fantasias em muitas outras. Para fugir ao déjà vu, optou por uma forma original de recordar uma gesta tantas vezes contada e recontada a gerações sucessivas de ouvintes atentos e interessados. Elegeu o rinoceronte indiano do monarca lusitano como contador de memórias desses tempos conturbados, em que a cosmovisão oriental era dado a conhecer à ocidental através dos animais exóticos de grande porte, convertidos para o efeito em embaixadores privilegiados dos novos impérios em formação. De repente, vem-nos à memória A viagem do elefante (2008), com que José Saramago nos relata as peregrinações de Salomão, o paquiderme oferecido por D. João III de Portugal ao sobrinho Maximiliano da Áustria. Lidos os livros, apercebemo-nos que as analogias discursivas são escassas e acabam por se diluir nos meandros familiares das personalidades/personagens envolvidas na intriga. Os planos da romancista francesa vão mais além do que os tecidos pelo romancista português. Aproveita-se da história do bada asiático para traçar em linhas muito precisas a história dos seus proprietários europeus: o rei D. Sebastião de Portugal, o imperador Rodolfo II da Alemanha e a rainha Cristina da Suécia.

Através de um eficaz esquema de narrativas cruzadas, as instâncias enunciativas convocam ao relato as particularidades de cada um dos retratados e dos espaços cénicos pisados nos seus percursos de vida. As rivalidades religiosas e dissidências internas entre cristãos, muçulmanos e judeus por um deus único e verdadeiro; os conflitos políticos e familiares gizados pelas casas de Avis, Habsburgo e Vasa pelo domínio hegemónico dos povos; as loucuras de uns e de outros a justificar as razões e sem-razões das suas ações. O contraponto cultural é-nos transmitido por um Luís de Camões envelhecido, um Giuseppe Arcimboldo cansado e um René Descartes acabado. Arautos da decadência de um mundo em mudança. O real e o imaginário a alternarem entre si soluções de continuidade ficcional para colmatarem as lacunas do nosso conhecimento factual. Os animais e os objetos ganham alma e analisam a vida dos humanos que os rodeiam, o espírito de um brâmane hindu transmigra para o corpo do bada-cronista, Filipe II fala com o fantasma de Juana de Áustria transmudada em libelinha. A fábula encadeada com o apólogo a dar sentido à alegoria ao longo de todos os registos fragmentários. O desejado sobrevive à carnificina africana, opta pelo estatuto de encoberto numa ermida marroquina, ganha o epíteto de enfermo e o dom de curar as maleitas alheias à sombra da Bíblia e do Alcorão. Casa-se com a órfã do sultão derrotado, constitui uma família numerosa e resiste à tentação de reclamar o trono a que tinha direito e a que outros menos credenciados se habilitaram sem medir os riscos que essa temeridade acarretava.

A recreação biográfica das três cabeças coroadas que unificam a crónica tem o condão de nos revelar facetas de vida possível que as lendas negras se encarregaram de inviabilizar. O rei-cruzado português desfaz os sonhos de guerra no convívio com o xeique muçulmano Tidjane Abdallah, o imperador-alquimista austríaco cimenta o sonho de paz nos encontros com o grande rabino Maharal de Praga, a rainha-bárbara sueca abdica de um trono luterano para aceder ao livre arbítrio católico. Três aprendizagens desenhadas nos universos da tolerância e do diálogo entre credos. Mensagem de esperança nesta nossa aldeia global tão pouco habituada a enxergar a alteridade. Eco longínquo desse campo de batalha perdida pelo rei desejado onde os trinados das dez mil guitarras abandonadas continuam a soar o triste fado sebástico de um destino ainda por cumprir.