
ABRIMOS NOS DOMINGOS 15 e 22 DEZ.
das 10h às 14h e das 15h30 às 19h30
abrimos à noite para as sessões agendadas
07/06/09
Vergílio Ferreira: Em Nome da Terra

05/01/09
Finisterra
Todos quantos lêm depressa, não leiam! Abstenham-se os devoradores de palavras, os do fast food literário, pedalantes leitores do sprint da novidade, camisolas amarelas do vien de paraître.
JAB
28/10/08
Stefan Zweig: 24 horas na vida de uma mulher
23/10/08
Carta para minha mãe, de Georges Simenon
Os sentimentos em relação a uma velha mãe que morre são frequentemente remorsos, mesmo quando já paira a indiferença ante a crueldade de ver destroçar-se o ser que nos deu o ser. Georges Simenon decidira não mais escrever em 1973. Um ano depois ditou este livro, uma carta a sua mãe.Tinha na altura setenta anos. A obra é escrita, com a ficção literária a ajudar, no tempo presente, reportado, porém, a um tempo passado: Henriette Brüll falecera três anos antes.
Porque se deve ler um livro de sofrimento e com este sofre-se? Pela humanidade que se ganha, mesmo quando dorida. O leitor reencontra-se em cada canto da breve narrativa e, mesmo naqueles que lhe são estranhos, há a presença pertinaz de um mundo possível de que poderia ter sido personagem. «Aprendi hoje que um casal que tem filhos não é apenas um casal», escreve este filho que sabe quanto os filhos «julgam os gestos, as palavras, os olhares de seus pais, impiedosamente», mesmo quando o amor gera a amnésia que tu perdoa, porque tudo esquece.
Carta à minha mãe é um livro duro na forma de exprimir nostalgia, que é o que fica de um amar póstumo, quando o amor em vida não foi possível. É numa grande parte a biografia de uma mulher que nunca ouviu um «amo-te» da boca do marido, que demonstrava amá-la ao estar ali e de si ausente, uma mulher que num segundo casamento, esgotadas as ilusões, encontrou apenas a esperança interesseira de uma pensão de reforma, assim ele morresse, porque nada mais havia já se não o silêncio de dois estrangeiros ou de dois inimigos, mulher a quem a senilidade fez, enfim confundir, como num só, os dois homens, uma alma que vivera a sua feminilidade transformada em domesticidade, num lar mudado tantas vezes, com quartos alugados a hóspedes de ocasião, que a pobreza perseguiu com o seu cortejo de ilusões, forma de matar a fome à realidade das carências.
É um livro de pudor, de um filho que, como todos os filhos, não consegue suportar a ideia indecente de os pais fazerem amor, um livro de ternura por uma mãe a quem a caquexia faz nascer a obsessão do receio de ser roubada, de profunda admiração pela força animal do orgulho, o único arrimo para a sobrevivência. Num dia, já com o fim à vista, devolveu ao filho todo o dinheiro que dele recebera e que conseguira não gastar, remediando-se, vivendo «com o estritamente necessário».
Eis a historia de «um ratinho» diligente, dorido na sua rudeza, de quem em 1942 o genial criador do inspector Maigret já dera, em Pedigree, um primeiro retrato.
«Antigamente os filhos não interrogavam os pais sobre o seu passado». No caso, Simenon escreveu um livro sobre esse passado e, para não perguntar, respondeu por ele.
Um livro notável.
29/08/08
sobre Franz Kafka e uma sua biografia
Há biografias que são simultaneamente a vida dos autores e das obras que os fizeram extraordinários escritores.
Passa-se isso com a notável biografa da Franz Kafka escrita por Pietro Citati.
Se não puder ler todo o Kafka, leia este livro até ao fim: são 349 páginas de uma viagem magnífica.
A obra foi publicada em 1987 pela Rizzoli, em Milão e está disponível desde 2001 na Cotovia, em português. A tradução é de Ernesto Sampaio.
Kafka é o Celibatário, o grande Solitário, o homem em «vertiginosa claustrofobia», Citati é um espírito puro em liberdade, um escritor numa «fuga grandiosa em relação ao infinito».
Momentos há no livro em que, porém, se indiferenciam, o biógrafo já transformado no biografado, o discurso quase directo, o leitor a ler nos lábios de Citati, como se folheasse cada uma das obras deste advogado asilado na Literatura.
Há nestes livros rasgos de génio construtivo, como a apresentação teológica de O Processo, a Lei como a casa de Deus, o Tribunal a emanação de Deus, a Justiça labiríntica «a luz ofuscante», um «Deus verídico e enganoso, próximo e afastado, acessível e inacessível, aberto e fechado, luminoso e tenebroso». Josef K. espera à porta da lei, perde-se nos corredores da Justiça, cumpre «a felicidade do castigo» da condenação da sua culpa: é a culpa que é a «afinidade entre a acusação, vítimas e juízes» e o Tribunal está sempre atraído pela culpa e é o estigma da culpa que atrai o culpado ao Tribunal.
Mas há sobretudo nesta obra única a constante de uma densa humanidade, como a de Gregor Samsa, que um dia acordou em Metamorfose transformado em insecto para viver, enfim, a oportunidade do amor com a única pessoa que o amava no que indiferencia o humano do bestial, o escritor como animal, o mundo como covil, o corpo como miséria, lastro de uma alma ansiosa de plenitude.
Minado por fundas depressões, querendo «altíssimas paredes» que o defendessem dos humanos, Kafka é um dos mais inteligentes escritores do século XX. Morreu a 24 de Junho de 1924. Viveu como empregado de uma companhia de seguros, deixou uma obra que, tal como a sua Muralha da China, «mantém tensas as cordas da alma». Escrevia até altas horas da noite, em estado de semi-inconsciência, descendo cada vez mais fundo às crateras da sua alma, arrebatado, vivendo uma tensão trágica constante, como se numa Colónia Penal.
Incapaz de uma relação conseguida no casamento chegou à noite do noivado, em Berlim, doente ou imaginando estar. «A minha bagagem compõe-se de insónia, peso no estômago, enxaqueca e dores no pé esquerdo», escreveu à irmã da sua noiva, no preâmbulo da «comédia do matrimónio sem matrimónio». Toda a sua vida é a sublimação dessa incapacidade de não ser um homem só.
JAB
03/08/08
Stefan Zweig - Carta de uma Desconhecida
Há em muitas das estantes das famílias dos anos quarenta livros seus: Amok, a história do louco da Malásia, Vinte e Quatro Horas na Vida de uma Mulher, O Jogador, bem como as várias biografias que escreveu: Fouché, o chefe da polícia francesa, Maria Antonieta, Fernão de Magalhães, tantos outros.
A sua trágica morte, por suicídio conjunto com a mulher, no Brasil, país a que se acolhera, refugiado do nazismo, impressionou indelevelmente as consciências.
Zweig está a regressar, porque a boa Literatura é intemporal e porque na sua narrativa está presente não o mundo de ontem mas o homem de sempre.
Carta de uma desconhecida é um dos seus escritos de juventude, mas já se pressente nele a mestria de um grande escritor.
O leitor contemporâneo, ao ter ante si estas linhas, terá que vencer a relutância natural que nos dias de hoje se gerou quanto às histórias sentimentais. Trata-se de uma carta escrita por uma mulher, tendo por companhia o corpo do filho morto, ao homem a quem se dedicou em «veneração apaixonada».
A carga dramática e o paroxismo na dor só a percebe quem tenha sabido conviver com a vulgaridade medíocre de todas as ridículas cartas de amor.
«(…) por isso fiquei tão feliz quando soube que tinha uma criança tua, por isso não te disse nada: afinal agora já não podias escapar-me», escreve a personagem, na página 44. Uma mulher entende isto no seu íntimo, um homem compreende-o no seu intelecto se souber sentir o que é uma mulher.»
A tradução, aqui e além questionável, é da autoria de Fernando Ribeiro, professor de Literatura alemã da Universidade Nova de Lisboa.
JAB
24 horas na vida de uma mulher
Da mesma editora (Esfera dos Livros) a obra de referência de Stefan Zweig, igualmente disponível no Pátio de Letras.


